Não adianta: nenhum ‘manual de instruções’ é suficientemente bom quando chega a hora de dizer adeus a alguém querido.


Toda morte nos choca, independente da causa: acidente ou velhice, doença degenerativa (em casos em que até pode ser um alívio, para quem se vai e ou para quem fica, que sofre ao assistir o declínio lento).


Independente de religião, mesmo quem acredita em múltiplas existências, não consegue passar indiferente ao ritual de despedida. Enterro ou cremação são igualmente dolorosos – e em geral as pessoas mais próximas se veem envolvidas nos preparativos, quando tudo o que gostariam de poder fazer mesmo seria sentar e prantear. Poder fazer isto é fundamental para elaborar a perda.

Tenho a impressão de que, como ocidentais, sofremos mais nas despedidas das pessoas que são importantes para nós. Nossa cultura não nos prepara para o enfrentamento da morte, este que é o único evento de que temos certeza. Segundo os estudiosos, os avanços da medicina contribuíram para isto, ao afastar o doente de sua família, sendo um peso na elaboração da perda.

Talvez algumas perdas nunca possam ser ‘superadas’, só ‘ressignificadas’. O tempo colabora, transformando o desalento total em saudade. Mas se não houver um firme comprometimento com a vida, as pessoas ao redor de quem sofreu a perda devem buscar ajuda profissional.

Dentre as abordagens filosóficas ocidentais, talvez a existencialista seja a que melhor aponte a relação entre a qualidade de vida que levamos com a aceitação diante de nossa própria finitude. Sim, cada morte de alguma forma nos atinge e nos desestabiliza porque vem nos lembrar da nossa própria morte, agendada, em algum dia distante (ou não, como saber?).

Apesar do hermetismo que dificulta a compreensão de Heidegger, o filósofo alemão definiu de forma (precisa?): o homem é um ser-para-a-morte. Mas isto não nos torna automaticamente ‘habilitados’ para lidarmos bem com ela.

Pessoalmente, consegui entender melhor a angústia de morte quando li o capítulo 4 de Existential Psychotherapy, de Irvin Yalom. Famoso por aqui pelos seus romances, pouca gente sabe que o autor escreveu um compêndio – ainda não traduzido – sobre a clínica apoiada nesta abordagem psicoterápica. O capítulo é repleto de casos clínicos e também de trechos de romances em que a angústia de morte está ali, clara como cristal. Um dos livros que cita é A morte e a morte de Ivan Iliitch, de Tolstoy. Tolstoy retratou perfeitamente bem o que todos nós pensamos antes mesmo do confronto com a morte. A percepção do envelhecimento já nos é difícil. E a negação de Ivan Illitch,  diante da constatação de que  vai morrer, é muito bem descrita :

No fundo de seu coração, ele sabia que estava morrendo, mas ele não apenas não se acostumava com a ideia: ele simplesmente não lidava nem conseguiria lidar com isto.

O silogismo que ele havia aprendido no Tratado de Lógica de Kiezewetter, “Caio é um homem; homens são mortais, logo Caio é mortal”, sempre lhe pareceu correto se aplicado a Caio, mas, certamente, não se aplicado a ele mesmo. Aquele Caio – homem abstrato – era mortal, perfeitamente correto. Mas ele não era Caio, não era um homem abstrato, mas uma criatura bastante diferenciada de todas as outras. (…) Caio realmente era mortal e estava certo para ele morrer. Mas, quanto a mim, pequeno Vanya, Ivan Ilyich, com todos os meus pensamentos e emoções, é um assunto totalmente diferente. Não pode ser que eu tenha que morrer. Isto seria muito terrível.


Existential Psychoterapy mudou minha forma de me relacionar com a vida. Teve muita importância a frase que Yalom ouviu de uma paciente, após um diagnóstico de terminalidade: “A existência não pode ser adiada“. Ele percebeu em seus pacientes, de todas as idades, de ambos os sexos, a urgência de fazer o máximo aqui, agora, sem adiar projetos, quando descobria que a vida podia se extinguir muito antes do que se planejara. Viver plenamente e de acordo com os outros existenciais: liberdade, responsabilidade, autoria. O psiquiatra aprendeu com seus pacientes  que a forma com que lidam com a morte é indicativa de como viveu: foi uma vida plena? Ou feita de adiamentos?

Alguns filmes tocam no assunto de forma sensível e trazem reflexão, sem apelar para o melodrama. Alguns destaques:

– O clássico Sétimo Selo – de Ingmar Bergman, de 1956

All that Jazz – musical

O Reencontro (1983) e Para o Resto de nossas Vidas (1992) – quase 10 anos separam os dois filmes, que se confundem um pouco por terem em comum a temática da reunião de antigos amigos e o enfrentamento da terminalidade.

O Encontro Marcado – filme de 1998, com Brad Pitt e Anthony Hopkins.

Amor além da Vida – este filme de 1998, que tem Robin Williams no elenco, ganhou Oscar de Melhores Efeitos, trata da morte inesperada e também do suicídio, trazendo um olhar espiritualista, muito parecido com a visão da  doutrina espírita.

Magnólia – filme de 1999, com elenco muito bom e várias histórias que se cruzam.


As Confissões de Schmidt – produção de 2002, com Jack Nicholson. Schmidt se aposenta e então descobre algumas coisas sobre a vida.

Invasões Bárbaras – filme canadense, de 2003, premiado no Oscar

O Tempo que Resta – filme francês, de 2005, ilustra bem o que Irvin Yalom percebeu em alguns pacientes terminais: a urgência de viver a vida plenamente.

O Escafandro e a Borboleta – Baseado em uma história real, nos lembra que a morte espreita todas as pessoas, de qualquer idade, a todo o tempo, apesar de construirmos defesas para não lembrarmos dela.

Listo abaixo outros a que não assisti (por critérios cinematográficos e não propriamente por rejeição ao tema) mas que sempre são citados :

– Doce Novembro

– Um amor para recordar

– P.S. Eu te amo

(Caso lembre de algum, mande a dica…)

Apesar de toda a importância do pensamento existencialista, na verdade estou mais de acordo com o que ouvi pela primeira vez na Unipaz, e não sei exatamente a autoria: somos seres-para-a-transcendência.

Cabe a cada um buscar descobrir como. Sim, há sempre a opção de não querer pensar sobre o assunto. Por isto, deixo como reflexão um filminho que foi premiado.


Perdas e despedidas

2 comentários sobre “Perdas e despedidas

  • 04/06/2009 em 16:24
    Permalink

    Olá Thays vi seu comentario no blog da Andrea Franco. Também sou psicóloga e participei da entrevista sobre amizade entre gays e mulheres. Você também participou? Adorei seu texto! Grande Beijo

  • 04/06/2009 em 16:24
    Permalink

    Oi, Mara, participei sim!
    Obrigada pela visita! semana que vem devo ter texto novo no ar!
    Beijo

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