O final de um relacionamento amoroso pode ser tão difícil de superar do que uma doença física. Às vezes, até mais.  Existem várias explicações possíveis para a dor do final; algumas mais românticas, outras mais científicas. Já foi comprovado, por exemplo, que, em estado de paixão, alguns neurotransmissores ficam em alta, fazendo que o cérebro funcione de forma semelhante ao de usuários  de drogas. Assim, em rompimentos não consensuais,  experimentam-se sensações parecidas com as de  crise de abstinência: a perda do par amoroso pode trazer ansiedade, pensamentos obsessivos e até dor física.

O uso intenso das redes sociais pode tornar a separação ainda mais difícil.  Muitas vezes, mesmo sem procurar, fica-se sabendo da outra pessoa  através de postagens de conhecidos em comum, em redes como  Facebook e Instagram, por exemplo. Eventualmente, podem-se receber notificações de lembranças passadas e, com isto, se reviver o que já passou. Mas, além destas situações, totalmente casuais e inesperadas, algumas pessoas, que não elaboraram bem o fim, acompanham e vigiam o antigo par amoroso nas redes sociais – comportamento conhecido como stalking.  A intenção pode até  ser fazer um fechamento, dando  sentido ao término, para superar mais facilmente. No entanto, na maioria das vezes, a vigilância não contribui para a aceitação. Pelo contrário. Se percebe que o/a ex segue a própria vida e interage com outras pessoas (possíveis novo/a/s parceiro/a/s, mas também, muitas vezes, não), o sofrimento pode se prolongar. O stalking pode virar uma obsessão e prejudicar a saúde mental, impactando no desempenho profissional, acadêmico e outros relacionamentos com pessoas próximas. Vale ressaltar que nem sempre as conclusões  do/a stalker serão certas, ao analisar o que vê online. E é importante que a pessoa se pergunte para que acompanha o/a ex; o que perde e o que ganha com este comportamento (além do tempo).  Apesar desta necessidade de fechamento, em palestra TED, o psicólogo clínico Guy Winch  ressaltou a importância de  parar de procurar porquês para o término, para curar o ‘coração partido’. A busca por explicação só prolonga a dependência em relação à pessoa que terminou, tirando  do centro de atenção a pessoa mais importante de sua vida: você mesmo/a.

Quando se compara a paixão com uma droga, seguir a pessoa é comparável a ingerir de novo a substância. Não ajuda na cura. É importante resistir – e entrar em abstinência (de informações) para poder efetivamente curar. 

Fases do luto amoroso – Há uma semelhança entre as fases do luto, propostas por Elizabeth Kübler Ross, psiquiatra suíça,   para descrever  os estágios que se enfrenta na perda por morte (em sequência: negação, raiva, depressão, barganha e aceitação). Muitos pesquisadores aplicam a mesma descrição ao  luto amoroso, porém, alguns, que comparam o término de um relacionamento às crises de abstinência por droga, propõem apenas 4 estágios do luto amoroso:

  1. abstinência- quando se sente falta do/a ex- que “fornecia” os neurotransmissores da alegria
  2. raiva
  3. resignação
  4. superação. A resignação e a superação são fundamentais para que se siga em frente.

A música Estou Pronto, do álbum A gente mora no agora, de Paulo Miklos em parceria com Guilherme Arantes, descreve um pouco da tristeza anterior (‘noite sem fim”) e da aceitação, mas mostra o otimismo e  abertura para outro relacionamento. 

Separações podem, enfim, ser muito dolorosas, mesmo, por razões variadas. Pode ser pelo histórico amoroso anterior àquele relacionamento, pode ser por baixar a autoestima – reforçando algumas crenças preexistentes, talvez, pode também ser por excesso de expectativas, pelo tempo investido e pelas oportunidades perdidas quando se optou por ficar em um relacionamento.  Para elaborar tudo isto, é normal que, após um término, se queira falar exausta e exclusivamente sobre isto.  Infelizmente, algumas pessoas se afastam, pelo tema repetitivo de conversas, contribuindo para o isolamento e a manutenção dos pensamentos obsessivos. Assim, se você está enfrentando uma separação – ou conhece alguém que esteja nesta fase – e sente  raiva e/ou tristeza  prolongadas e intensas,  busque ajuda psicoterapêutica. E se você lida com alguém que está passando por esta fase, tenha compaixão e paciência. 

Na psicoterapia, fala-se sobre mágoas, faz-se um balanço de erros e acertos. Aceitar a dor, mais do que se esquivar dela, pode tornar toda a situação menos traumática. Ajuda a se recuperar e também  contribui para relacionamentos amorosos futuros. Torna possível a  opção de permanecer só  (temporária ou permanentemente). Assim, a ajuda psicoterápica pode colaborar para que se chegue à fase de resignação e, enfim, de superação. 

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Thays Babo é Psicóloga Clínica, Mestre pela Puc-Rio, com formação em TCC pelo CPAF-RIO e extensão em Terapia de Aceitação e Compromisso pelo IPq (USP). Atende a jovens e adultos em terapia individual e de casal ou pré-matrimonial em Copacabana.

Superando o fim

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