A internet e, posteriormente, a telefonia celular revolucionaram a forma com que o ser humano se comunica. Relacionamentos amorosos e profissionais foram afetados. Salvou e continua salvando vidas. A economia também sofreu mudanças – aliás,  todo o nosso estilo de vida. A popularização do smartphone acelerou as mudanças.

Maldição ou bênção? Aumentaram as  possibilidades de aproximação e contato interpessoal – o que é ótimo, por um lado. Mas também há uma sobrecarga. Enfim, há impactos profundos na nossa saúde mental e emocional.

Contato pessoal: gatilho para a ansiedade?

Se no fixo, podem não saber, previamente, quem está do outro lado da chamada. Sentem-se invadidos.  Assim, cresce a tendência a se comunicar por mensagens de texto, via whatsapp ou messenger. Às vezes deixam tocar e mandam uma mensagem texto em seguida. Este comportamento já virou verbo: em inglês, texting.

Telefones fixos  tendem a sumir, assim, principalmente se não tem identificador de chamadas.

O diagrama abaixo parece piada mas representa a atitude de muitos jovens frente a ligações telefônicas. 

regras telef

Muitos jovens relatam grande ansiedade quando recebem um telefonema. Consideram uma ‘intimidade’ forçada, principalmente quando não conhecem muito bem a pessoa. Recusam até as chamadas de pessoas próximas, como pais e mães.

No entanto, jovens nascidos na era digital parecem ter perdido algumas habilidades sociais básicas.

Há os que nem fazem ideia de como era ter um telefone analógico em casa. Acostumados a se comunicarem por mensagens de texto, fazerem pesquisas no Google e pedidos nos aplicativos,  restringem contatos pessoais, face a face. As novas gerações também têm apresentado mais problemas de saúde mental – incluindo  depressão e ansiedade.

Habilidades sociais perdidas

A recusa em atender a uma ligação  telefônica pode ter vários significados.  Pode ser a ansiedade, como dito antes mas também pode ser o desejo de ter o controle. Pode ser uma relação de poder (principalmente no início de um relacionamento amoroso), de não se mostrar muito disponível. Ou ainda para “se preparar” para a conversa. Enfim, ansiedade mesmo, cá entre nós.

Porém, ao  evitar a espontaneidade da interação imediata, algumas informações que são importantes para um relacionamento também são perdidas. O tom de voz de quem está do outro lado da linha dá  sinais importantes da qualidade da relação. Faz diferenciar se a pessoa está brincando ou séria. Quanta coisa se interpreta errado e gera confusão. O psicólogo Guy Winch sugere que abusemos dos emojis para não deixarmos dúvidas. Mas isto pode parecer tão infantilizado…

Ouvir a outra pessoa é o melhor. Mesmo que, para isto, você tenha de  expor sua vulnerabilidade.   

Outras consequências do excesso do celular

Além de impactar nas relações interpessoais e restringir habilidades sociais, o uso excessivo do celular traz também impactos  físicos. Alguns ortopédicos – como, por exemplo,  a síndrome causada pela má postura do pescoço. Também é comum a queixa de tendinite, pela digitação excessiva de mensagens e posts.

celular pesc

Em termos cognitivos, a capacidade linguística é afetada: para a comunicação ser rápida, a linguagem é simplificada. Tanto a interpretação de texto e a  grafia podem ser prejudicadas e atrapalhar a interação, gerando conflitos desnecessários.

Como se comunicar na era digital

Por mais que a gente queira resistir à tecnologia, está ficando impossível não usar os smartphones. Empresas migram para o mundo digital – e isto, em especial, a partir da pandemia.

Portanto, é importante aprender a lidar com a tecnologia de forma equilibrada. Para isto, são necessários limites para si. Você precisa,  por exemplo, lidar com a sua ansiedade e a dos outros. Precisa  desligar o celular para ficar mais presente nas relações próximas. Para  poder, inclusive, dormir melhor! 

Exemplo familiar

Existem alguns comportamentos que podem ser modificados, em casa. O smartphone deve ser desligado em momentos de interação, como as refeições em família. Pode-se também estipular  um horário limite para que todos em casa desliguem seus celulares da internet.

Mas, para conseguirem colocar limites, pais e mães precisam dar exemplo. Responsáveis por crianças pequenas têm de resistir à tentação de não usarem os celulares como babás digitais – o que prejudica demais o desenvolvimento da criança. 

Gerenciando o uso do smartphone

Deixando a visão apocalíptica de lado, é importante reconhecer os inúmeros benefícios da tecnologia e aprender a  gerenciar o uso do smartphone para ficar com os benefícios e restringir os prejuízos. Assim, a consultora de tecnologia Tchiki Davis elenca, na revista  Psychology Today,  6 maneiras para não deixar que isto aconteça:

1. Não substitua  as interações face-a-face por interações eletrônicas – algumas medidas são simples como, por exemplo, ao invés de se isolar, vendo séries (no celular, computador ou TV), convidar amigos para ir ao cinema. Manter as amizades não apenas as acompanhando nas redes sociais, dando “likes“: efetivamente demonstrar o quanto se gosta da companhia, marcando para encontrar. (No caso do Brasil, no momento, infelizmente a economia e a violência urbana dificultam, mas sempre há como pensar alternativas)
2. Não use seu smartphone enquanto estiver com outras pessoas – particularmente difícil, é uma medida extremamente necessário. Quando somos nós que fazemos isto acreditamos que não nos distraímos mas, quando alguém faz isto conosco, tendemos a ficar incomodados, nos sentindo desprestigiados. E também há estudos de que as interações são menos prazerosas. E, no mínimo, menos mindful.
3. Mantenha seu telefone fora de vista durante conversas significativas – com seu alto poder de distração, a mera presença do smartphone no ambiente pode prejudicar a qualidade da comunicação interpessoal, por reduzir a empatia e a atenção, dentre outras qualidades importantes para uma boa interação pessoal. Em conversas íntimas, ao compartilhar algo importante e íntimo, a pessoa pode ficar bastante triste ao perceber que você não está 100% presente.
4. Não deixe seu smartphone impedir você de se relacionar com estranhos – na contramão do que os pais costumam dizer aos filhos pequenos, Tchiki Davis comenta o quanto socializar com estranhos é importante. O olho no olho faz diferença. Em transportes públicos, percebe-se que este contato visual diminuiu – praticamente a maioria está com seu celular na mão respondendo mensagens ou assistindo vídeos e lendo notícias. Além disto, aplicativos como o GPS e WAZE também diminuem a urgência do contato interpessoal. Fazer perguntas a  estranhos na rua, para se informar sobre um caminho,  praticamente não acontece mais – o que não é necessariamente bom, por reduzir as experiências e as interações humanas.

ilhas

5. Se você estiver on-line, seja ativo/a – muitas pessoas navegam e veem conteúdo nas redes sociais sem efetivamente interagir, sem deixar rastros. Assim, a rede social não cumpre a função de conectar as pessoas – e conexão é uma necessidade do ser humano, como animal social que é.
6. Em caso de dor, conecte-se com as pessoas pelo smartphone – apesar de parecer paradoxal a princípio, quando não há acesso às pessoas significativas próximas, é importante que se tenha a quem recorrer em situações de dor.

Ainda que algumas destas sugestões possam parecer difíceis de adotar, são extremamente úteis para preservar relacionamentos interpessoais. Também ajudam a manter algumas habilidades sociais importantíssimas. Assim, apesar de terem sido dirigidas aos mais jovens, pessoas de todas as idades podem se beneficiar delas. 

Avalie o seu uso de redes sociais, como Facebook e Instagram, bem como de  outros aplicativos. Se perceber que afetam o seu humor, aumentando a ansiedade ou trazendo pensamentos depressivos, se diminuem os seus relacionamentos interpessoais, não hesite: procure ajuda psicológica. 

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Thays Babo é psicóloga e Mestre em Psicologia Clínica pela Puc-Rio, na linha de Família e Casal.

Com formação em Terapia Cognitivo Comportamental, concluindo o curso deTerapia do Esquema e extensão em Terapia de Aceitação e Compromisso, atende em Copacabana  e online a jovens e adultos, em terapia individual, terapia de casal e pré-matrimonial.

Smartphone: maldição ou bênção
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