Terapia de Casal nas telas – e porque muita gente não leva a sério…

Terapia de Casal é um recurso valioso para relacionamentos amorosos que atravessam momentos difíceis. Contudo, os casais levam muito tempo entre as primeiras discussões e a busca por terapia. No Brasil, mais ainda – talvez pelo custo imaginado. No entanto, acredito que a forma da representação da Terapia de Casal nas telas scontribua para que muita gente não leve a modalidade a sério.

Fazer terapia ainda é tabu. Um pouco menos, a partir da pandemia de Covid-19. Mas são poucas pessoas que contam para amigos ou familiares que estão em processo de terapia de casal. Muitos consideram o último recurso, depois de muitos embates e desgaste.

Uma exceção valiosa: Michelle Obama declarou em uma entrevista que ela e Barack recorreram à Terapia de Casal.

O mais comum, no entanto, é casais que só contam que fizeram TC quando o relacionamento não prossegue. Declaram, tristes: “fizemos até terapia!”. Assim, algumas pessoas pensam que a responsabilidade da não continuidade da relação foi o processo.

Quais são os motivos para um relacionamento amoroso dar errado?

O casal Gottman diz que a comunicação do casal permite estimar com grande margem de acerto se ele continuará junto. Cada um chega para a relação com os seus modelos de conjugalidade e parentalidade. Ao trazer seu histórico de traumas e experiências amorosa, a forma com que compartilham pode unir ou afastar o casal. Hábitos e valores podem ser muito diversos.

Relacionamento amoroso demanda flexibilidade, abertura e uma boa comunicação. Só assim, o relacionamento pode se tornar valioso e realizador.

No entanto, a indústria romântica trouxe crenças sobre os relacionamentos que acabam dificultando a busca por ajuda profissional.Tais crenças  são reforçadas através de filmes, romances, músicas, novelas. Produtos culturais falam de  “final feliz” e da  existência de “almas gêmeas”.

A crença de que “se for pra ser”, o relacionamento se acertará como mágica, que as pessoas se entenderão “só de olhar” que filmes e novelas mostram são obstáculos para a Terapia de Casal ou mesmo contra a Terapia Pré-Matrimonial (ou pré-marital).

Além disto, a Terapia de Casal é comumente usada nestes filmes e ou novelas como recurso de humor. Trarei alguns exemplos aqui.

Ao contrário do que as comédias românticas fazem acreditar, a vida a dois não é a experiência mais fácil do mundo. O casal precisa encarar os desafios e diferenças com flexibilidade e abertura para o seu par.

Representações da terapia de casal nas telas

Normalmente, cenas de psicoterapia são usadas como um recurso cômico, para falar dos relacionamentos. Subliminarmente, pode contribuir para que se duvidem da validade e eficácia da Terapia de Casal. Trarei alguns exemplos de filmes de sucesso em que a  Terapia  de Casal é um mero recurso de humor.

Por exemplo, em Sr. e Sra. Smith, de 2004, a trama começa e termina com uma cena da terapia. Logo de início, fica claro o afastamento do par amoroso, que decide buscar ajuda profissional. Eles apresentam uma comunicação indireta, provocativa. Mal se olham e discordam em algumas percepções. Mal se olham.

Quando buscam ajuda profissional, não são verdadeiros quanto a quem são. Os segredinhos vêm desde como começaram a se relacionar. Aliás, foi meramente acaso e necessidade e sobrevivência. A atração sexual foi forte. Obviamente, a falta de honestidade se estende à terapia.

Os Smiths têm sérios problemas de comunicação. Estão afastados na primeira entrevista. Mal se olham. Relatam o casamento de forma diferente, suas memórias e percepções divergem. O filme tem mais de 20 anos mas não vou dar spoiler... Mas posso dizer que as mudanças que acontecem foram causadas por fatos alheios à terapia.

Comunicação – fator determinante da qualidade do relacionamento amoroso

Nem sempre aprendemos a nos comunicar de forma assertiva e não violenta na nossa familia de origem. Pessoas que vêm de famílias mais agressivas ou que, por diferença cultural, falam mais alto ou usando palavrões, tendem a ter mais problemas na relação diante de um(a) parceiro(a) mais gentil. Este(a) pode se assustar, retrair e calar – fechando a troca.

Assim, quando o estilo de comunicação se torna um fator que ainda dificulta mais a harmonia diária, diante dos probleminhas cotidianos, ele vai aparecer também durante a sessão da terapia do casal. No caso dos Smith, podemos até adiantar que ambos têm o esquema de Desconfiança super ativados.

Na vida real, muitos terapeutas de casal focam no treinamento da comunicação, em especial a comunicação não violenta. O objetivo é criar condições para que o par restabeleça a comunicação perdida. E consiga se ouvir sem agressões ou acusações.

Nas sessões terapêuticas, são necessárias regras para que os conflitos não escalem – nem no setting terapêutico, nem fora dele.

A comunicação impacta na vivência sexual do casal

A comunicação conjugal problemática afeta a vida sexual da maioria dos casais. Ainda citando este filme, fica claro que a sexualidade de Mr e Mrs Smith está prejudicada, como pode ser visto logo no início do trailer. E também fica subentendido que ambos gostariam de que houvesse uma frequência maior nas relações.

Contudo, não é só falar sobre a sexualidade, na hora em que se vai para a cama…. Como diz Esther Perel, tudo o que acontece entre uma relação sexual e outra é preliminar. Sem diálogo fora da cama, o afastamento sexual acontece. Quanto melhor a comunicação, mais espontaneidade e abertura para a sexualidade.

Ainda  tabu em pleno sexo 21, a sexualidade não aparece como questão apenas em Sr. e Sra Smith.  Em Um divã para dois,   um  casal de meia-idade enfrenta dificuldades sexuais. Aparentemente, pensamos que elas se dão pelo envelhecimento. Filhos criados, missão cumprida, afastamento. Um quadro comum na vida de muitos casais maduros.

Um divã para dois

Neste filme, Kay (Meryl Streep) não consegue conversar com o marido, Arnold (Tommy Lee Jones) sobre a falta de desejo dele e sua evitação do sexo. O casal vive uma rotina entediante. Kay, por fim,  dá um ultimato:  terapia de casal. O terapeuta é interpretado por Steve Carell.  

Apesar de ser uma história comum, você não precisa repeti-la. Há casais que seguem felizes e saudáveis. Mas o diálogo tem de estar presente.

O filme começa bem, o esforço de Kay em convencer o marido dá certo. Porém, apesar da terapia ter bons momentos, Um divã acaba resvalando no pieguismo e reforçando a crença hollywoodiana irrealista de que o amor, por si só, tudo resolve.

Assim, por trabalhar com terapia de casal, considero o final do filme um desserviço.

Em ambos os filmes, a mudança não é provocada pela terapia de casal. É o acaso. É o tempo. E a gente sabe que não é assim que as situações se resolvem, na vida real. Mas o público leigo não. Pelo contrário…

O humor e o inusitado reforçam a crença de que os problemas se resolverão sozinhos. Esta “moral da história” contribui para que muitas separações aconteçam. Mesmo pessoas que se amam podem se separar por seus esquemas disfuncionais, como padrões inflexíveis.

Tempo de buscar ajuda para o casal

Estudos mostram que os casais levam em média 6 anos para buscarem ajuda profissional. Assim, chegam cansados quando recorrem a esta modalidade de terapia, depois de tantas brigas e mágoas.

Com isto, ao chegar no consultório, as chances de um (ou ambos) não ter mais vontade de continuar a relação são altas. A terapia passa a ser um recurso para separarem sem litígio.

Amar dá trabalho, como diz o filósofo Alain de Botton. Para um relacionamento amoroso ser bem sucedido, é preciso

  • esforço;
  • atenção e dedicação;
  • comunicação empática e não violenta;
  • flexibilidade psicológica e cognitiva;

A ideia romântica de que “se o amor for de verdade, tudo se resolve”  infelizmente dificulta e precisa ser derrubada.

Terapia de Casal e uma representação mais realista

Há uma exceção sobre a representação da terapia de casal: o filme brasileiro Como nossos pais. Rosa (Maria Ribeiro), em uma cena dramática, muito mais parecida com a “vida real” contemporânea. Nela, explica a razão para a sua falta de desejo, de que o marido (Paulo Vilhena) se queixa.

Aliás, é interessante perceber que o que faz com que cada um esteja em uma sessão de terapia é bem diferente. E isto também acontece na terapia da vida real.

Como a Terapia de Casal pode ajudar

Um dos principais pontos, tanto da Terapia de Casal (TC) como da Terapia Pré- Matrimonial, é o treinamento das  habilidades de comunicação. Para o casal Gottman, especialistas em terapia de casal, o estilo da comunicação predominante serve como preditor do relacionamento amoroso. 

Portanto, é fundamental  (re)estabelecer uma comunicação respeitosa, sem ironias, ou deboche. É importante ter curiosidade e abertura para conhecer os valores que um e outro trazem.E também compromisso para agirem de acordo com o que querem, e buscam para o relacionamento.

Mas, nem todos os problemas serão da comunicação – apesar de passarem por ela. Pode haver a necessidade de um  tratamento complementar (médico, por exemplo). E de terapia individual. 

Em muitos casos, o casal consegue ajustar o que estava indo mal. Mesmo que  o  relacionamento chegue  ao fim,  a terapia possibilita que se finalize de forma mais harmoniosa um relacionamento, sem que se torne um litígio.

Tipos de terapia

Portanto, se o seu relacionamento não tem sido o que você e seu/sua parceiro/a esperavam que fosse, dê uma nova chance. Não espere muito tempo a ponto de não se conseguir resgatar o respeito e a cumplicidade. Experimentem a Terapia de Casal ou  a Terapia Pré-Matrimonial.

É possível transformar o relacionamento de vocês, indo na direção do que ambos valorizam e querem.Mas para isto é necessário o compromisso de ambos.

Para finalizar,  um pouco mais de humor. 

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Thays Babo é psicóloga, Mestre em Psicologia Clínica pela Puc-Rio. Com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e em Terapia do Esquema, bem como extensão em Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT). Atualmente  está em formação em TSU. Atende  a jovens,  adultos e idosos, em terapia individual, de casal ou terapia pré-matrimonial, em Copacabana e online.

Terapia de Casal – por que não?

25/07/2019

Em “saúde mental”

Terapia de Casal nas telas – e porque muita gente não leva a sério…

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