Alguns mitos sobre casamento impedem que muitos casais busquem ajuda psicoterápica. Um deles é que casais felizes não discutem, nunca. Inúmeros estudos desmentem esta crença e dizem que o segredo é saber como brigar e  como reparar o estrago eventualmente feito.

Em relação à Terapia de Casal, há quem ache que é o ‘último recurso’ ou que é só ‘para separar’.  Na verdade, quando um casal busca ajuda psicoterapêutica é porque  reconhece que não está conseguindo lidar com aspectos importantes no seu dia-a-dia. Ou seja, casais que não procuram não são, por si só, mais felizes.  E talvez,dentre os que buscam, a maioria só o faça depois de muito estresse e sofrimento, como último recurso. Recorrer à ajuda profissional pode soar como fracasso mas, na verdade, é uma tentativa de lidar com conflitos e de forma imparcial. O setting terapêutico é um espaço especial onde se discutem assuntos espinhosos, muitas vezes não falados na época do namoro. Terapia é muito diferente de conversar com parentes ou com amigxs ou até sacerdotes. As pessoas próximas opinam, dão conselhos e opiniões  mas também  cobram atitudes, não entendendo as escolhas do casal. Viver a dois já é difícil e incluir a opinião de toda a rede de amigos e parentes,  testemunhas das divergências, dificulta ainda mais.

Alguns temas são bem recorrentes nas desavenças de um casal. Um dos mais delicados é a infidelidade, que sempre magoa. Queixas relativas à sexualidade, à gestão das finanças e mesmo o uso excessivo dos smartphones e aplicativos são frequentes. Tudo isto se agrava quando há dificuldade (ou falta) de comunicação.

Tem ficado bastante comum a terapia pré-nupcial ou pré-matrimonial. Afinal, é importante que quem queira casar – oficialmente ou não – possa ter abertura para falar com seu par amoroso o que é importante para si. Valores, projetos de vida, vontade de ter ou não filhos, divisão de tarefas, como lidar com dinheiro, tudo isto pode (e deve!) ser conversado e acordo antes mesmo da união. Gasta-se um tempo precioso decidindo-se a cerimônia de casamento, quem convidar ou mesmo onde morar. Mas não se fala sobre o que é inaceitável – ou esperado – na relação, o que não se negocia. Além disto, é muito comum a crença de que a outra pessoa adivinhará, ‘telepaticamente’, seus desejos, herança talvez dos contos de fadas e filmes hollywoodianos.

A vida sexual do casal também é um aspecto muito importante do casamento, pois distingue o casamento de uma relação de amizade, por exemplo. Mas, para muitos casais, ainda é difícil conversar sobre desejos, fantasias e medos. Brincam com o assunto, fazem piadas, mas não sabem comunicar o que querem ao seu par. Expectativas não adivinhadas podem gerar frustração e ressentimento, atrapalhando  o relacionamento conjugal. 

Dois filmes americanos incluíram situações em que o casal busca ajuda terapêutico. O início de Sr. e Sra. Smith ilustra bem o começo de terapia em casais que camuflam a agressividade, se comunicando mal. Apesar do foco deste filme não ser a terapia, é bem divertido observar como comunicação é problemática no início, se manifestando também de forma não verbal.

Então, é importante esclarecer que Terapia de Casal não destrói casamentos, pelo contrário: ajuda a rever o compromisso assumido, treina habilidades de comunicação, restabelecendo-a, bem como o respeito mútuo. Há casos, porém, em que apenas uma das partes quer começar o processo psicoterapêutico e a adesão pode ser difícil, como em  Um divã para dois,  centrado na dificuldade sexual de um casal de meia-idade. A esposa (Meryl Streep) não consegue conversar com o marido (Tommy Lee Jones) sobre o problema e procura ajuda de um terapeuta. Neste filme, os problemas sexuais estão relacionados à idade, mas eles também ocorrem em casais jovens. Infelizmente, no final, resvala no pieguismo nada científico,  reforçando o mito  de que ‘com amor, tudo se resolve‘.  Por mais que  isto pareça lindo e mágico, não costuma ser assim, na vida real. Se fosse, não haveria tantas separações de casais que se  amam. É importante ouvir um ao outro, bem como  perdoar, superar mágoas ou até dar um voto de confiança, em caso de traição. Quem entra em um casamento com crenças irrealistas de que tem de ser fácil, se decepciona e não conseguirá  vivenciá-lo de forma prazerosa e feliz. Vale ver o filme, apesar do final nada realista.

A Terapia de Casal pode então contribuir para muitos casamentos, possibilitando que voltem a ser prazerosos. E, caso a separação aconteça, muito mais provavelmente acontecerá em bases de respeito e consideração pelo outro, sem resvalar em litígio. Caso o  seu relacionamento não esteja como   você e seu/sua parceiro/a gostariam, deem-se nova chance. Procure ajuda psicoterápica e tente mudá-lo na direção do que ambos valorizam e querem.

Referências

Beck, A. T . Love is never enough. New York: Harper & Row. 1988.

Harris, R.  Act with love: stop struggling, reconcile differences and strenghten your relationship with acceptance and commitment therapy . Oakland: New Harbinger Publications, 2009.

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Thays Babo é Psicóloga Clínica, Mestre pela Puc-Rio, com formação em TCC pelo CPAF-RIO e extensão em Terapia de Aceitação e Compromisso pelo IPq (USP). Atende a jovens e adultos em terapia individual ou de casal, no Centro do Rio e em Copacabana. 

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