Os italianos dizem “mangia che te fa bene“. Como psicoterapeuta, adepta das práticas meditativas, adaptei e digo sempre às pessoas que atendo: ‘medita que te faz bem‘. E por que, meditar para quê? Antes de mais nada, tem de se entender o que meditação é e o que não é.   

Até bem pouco tempo, no Ocidente, pensava-se  que meditar era  uma prática religiosa, sem nenhum benefício. Mas, o médico Jon Kabat Zinn,ao sistematizar o conhecimento da prática de mindfulness, divulgando e expandindo a pesquisa científica, possibilitou que  os mais céticos descobrissem os inúmeros benefícios – extensivos também a ateus ou agnósticos.  A meditação é uma prática para qualquer idade, raça, religião e  sexo. Quanto mais cedo se começar, mais fácil será.  Pode não ser uma tarefa fácil, para nós, ocidentais, mas vale a pena. Várias instituições e organizações já vêm adotando.  Policiais e atletas, dentre outras categorias profissionais, se beneficiam muito com o tempo dedicado a prática. 

CRENÇAS SOBRE A MEDITAÇÃO

Sintetizando muito, pode-se dizer que a meditação ‘dá um tempo’ para a sua mente mas ainda existem algumas crenças sobre a prática que fazem muitas  pessoas não começarem a praticar.  Algumas destas crenças só atrapalham – e nem são verdadeiras. Como, por exemplo:  

  • “Para meditar, é preciso parar de pensar” – a mente não necessariamente irá parar de produzir pensamentos. Esta é sua função para isto, importante para a sobrevivência. Então parar de pensar não pode ser o objetivo da prática.  Eventualmente, a produção de pensamentos pode parar por segundos ou minutos.  Pode diminuir – mas o exercício de observar o fluxo dos pensamentos, sem os alimentar, é que é a meditação em si. 
  • É preciso praticar por horas! Não tenho tempo!” – Na verdade, pode-se começar com bem pouco tempo, até um minuto. E, como diz um meme, se você tem tempo para internet (e redes sociais, como Facebook, Instagram etc), você tem tempo para meditar. É mais importante manter uma  regularidade, do que praticar por longo tempo. Assim se conseguem perceber os benefícios a médio e longo prazo.
  • Tenho de sentar  em posição de  yoga, na postura de lótus, e não consigo!” – Qualquer pessoa pode praticar, mesmo sem  flexibilidade. Basta sentar em uma cadeira ou almofada.  Eventualmente, até pode ser praticada  deitando-se – mas, como o objetivo da meditação não é dormir, é preferível meditar sentando.  
  • Não consigo parar, vou dormir!” – Existem infinitas modalidades de meditação. Pessoas que não conseguem ficar muito tempo paradas podem praticar caminhando ou dançando,  por exemplo.

O vídeo da Meditação de 1 minuto mostra como pode ser simples começar – com um tempo reduzidíssimo.

  • COMO COMEÇAR

Pelo menos de início, é importante estar em um ambiente mais tranquilo e reservado, em que não haja interferências e nem chamados para a distração. Roupas confortáveis ajudam. Desligar  telefones e alarmes também.

Deve-se escolher um foco de atenção (ou “âncora“). Pode ser um objeto, uma palavra (mantra ou não), uma imagem ou ainda, simplesmente, prestar atenção à respiração. A concentração sobre o objeto foco e a simples observação dos pensamentos, que invadem mas não são alimentados, ajudam a distanciar-se dos pensamentos. Não estimulando o fluxo do pensamento nem a imaginação, pode-se conseguir um grande relaxamento.

Não tente controlar nada. Só observe. Sem julgamento. E, quando  perceber que a mente divagou… traga-a de volta para o objeto âncora – ou seja, volte a observar sua respiração… Não se julgue por ter ‘viajado’. É assim mesmo. Pode-se dizer que a meditação é uma ‘musculação mental’, em que a  a mente é trazida para  onde queremos que ela esteja. A âncora seria o peso a manter a atenção no aqui e agora.

  • BENEFÍCIOS

Os benefícios fazem valer a pena o esforço para estabelecer a prática. Por isto  cada vez mais a meditação é apontada por profissionais da Medicina e da Psicologia como importante coadjuvante nos tratamentos. Gradativamente, de acordo com a constância e tempo dedicado às práticas, pode diminuir a necessidade de medicamentos, inclusive.

  • Melhora a concentração – permitindo que a vida possa ser analisada sob outra perspectiva;
  • Aumenta a criatividade – soluções  podem surgir durante a meditação, pensamentos inspirados ou criativos também, sem que tenha sido este o objetivo da meditação;
  • Diminui a ansiedade e os níveis de estresse;
  • Combate a insônia; 
  • Melhora os relacionamentos interpessoais – na medida em que ajuda a distinguir o que se pode deixar passar;
  • Diminui compulsões, com a prática do mindful eating

Em um mundo corrido e invasivo, em que se tem de estar disponível, online, 24 horas, dedicar um tempo ao silêncio e à contemplação pode gerar, inacreditavelmente, uma ‘culpa’ nos workaholics – justo os que precisam mais da meditação.  Para criar o hábito,  ter um horário determinado, um espaço específico com iluminação suave e sem muitos barulhos e estar com uma roupa confortável ajuda. Pode ser no início do dia, antes de sair pro trabalho ou universidade.  Muitas empresas, que já perceberam os benefícios,  patrocinam cursos para seus colaboradores. 

 

Photo by Brian Mann on Unsplash

Pode-se meditar com música ou não, de olhos abertos ou fechados, observando uma imagem ou uma parede branca, ou ainda contemplando a natureza. E quanto mais tempo se pratica,  mais fácil usar a técnica escolhida.  Enfim, sempre há uma técnica que cabe para cada pessoa, basta querer buscar.

  • Psicoterapia

Profissionais de várias abordagens psicológicas – como a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT)  e a Terapia Cognitivo-Comportamental  (TCC) –  adotaram  na prática clínica, como coadjuvante. Uma simples parada, de alguns minutos, pode contribuir instantaneamente na condução da sessão. E também facilita que seja vencida uma resistência à prática, esclarecendo sobre as crenças mencionadas acima. Mas é a prática continuada – fora do consultório –  que fará mesmo a diferença no processo psicoterápico.

Toda caminhada  começa com o primeiro passo e assim, também para meditar, é importante vencer a inércia, a resistência inercial da própria mente. Julgamentos (e auto condenações) podem vir, dependendo dos seus esquemas mentais (“eu não consigo!”,”não é para mim!“), mas é importante deixá-los  passar, sem negar sua existência. O esforço compensa, como as pesquisas comprovam.  Informe-se. E pratique! Se quiser compartilhar sua experiência, entre em contato. 

 

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Thays Babo é Psicóloga Clínica, Mestre pela Puc-Rio na linha de Família e Casal. Fez formação em TCC no CPAF-RIO e extensão em Terapia de Aceitação e Compromisso no IPq (USP). Atende a jovens e adultos em terapia individual, de casal ou pré-matrimonial,  em Copacabana.

Medita che te fa bene
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