Muito se tem falado na mídia sobre a população LGBT. Pessoas transgêneras têm conquistado maior visibilidade e alguns programas de tv por assinatura estão abordando mais abertamente  o tema, como o canal E!, que em janeiro de 2019, estreou o reality show The Bi Life. A sociedade, apesar de ainda muito julgadora, começa – bem lentamente – a entender do que se trata.

No Brasil, a violência contra transexuais e transgêneros permanece altíssima. Recentemente, o STF propôs criminalizar a homofobia – e isto gerou um movimento grande nas redes sociais, usando a hashtag #criminalizaSTF. No entanto,  a criminalização da homofobia ainda não foi definida. Dentro deste projeto, vai ser criminalizada a violência contra toda a comunidade LGBT. 

Não se fala muito sobre sexualidade humana na graduação de Psicologia e nem na de Medicina. A falta de informações faz com que muitos profissionais não entendam a sexualidade sem julgamento. A bissexualidade, por exemplo, é talvez a orientação sexual que sofre maior preconceito. A bifobia vem igualmente  de heterossexuais, gays e lésbicas e, surpreendentemente de bissexuais.  Sim, porque com pouca divulgação de estudos sobre a bissexualidade, há bissexuais que se questionam: “será que um dia eu me defino?“. Há quem acredite que a bissexualidade seja apenas uma fase de experimentação (mais aceita entre os jovens), antes de uma transição definitiva para os pólos. 

Observando a escala Kinsey de Sexualidade, pode-se questionar se a população bissexual não seria maior do que se supõe. 

scala-kinsey

Segundo a escala Kinsey, com dados sobre a sociedade americana, apenas 50% da população é exclusivamente heterossexual. Ou seja, a diversidade é a norma e a orientação sexual pode ser fluida, momentânea, para grande parte da população. 

Pessoas famosas, estrangeiras ou não, cada vez mais têm se declarado bissexuais. Porém, a mídia muitas vezes fala que a pessoa  ‘assumiu sua homossexualidade’. Apesar da discussão sobre a existência da bissexualidade ser, realmente, limitante, é muito necessária, para combater a bifobia. No twitter, em 2016, a hastag #FoiBifobiaQuando ajudou a identificar algumas situações em que ela se apresenta.

E quais são as principais crenças que se tem sobre bissexualidade?

    • Bissexuais só querem ‘o melhor de ambos os mundos’: as vantagens sociais da heterossexualidade e o prazer ilimitado.
    • Bissexual é quem ainda não se decidiu;
    • Bissexuais são incapazes de serem fiéis ou ficarem em uma relação compromissada;
    • Bissexuais gostam de orgias, sexo grupal, ménage etc
    • Bissexuais são pedófilos em potencial.

No entanto, a maior parte destas generalizações poderia ser aplicada  tanto a héteros e homossexuais que evitam relacionamentos com bissexuais por acreditarem que serão mais traídos, tentando esquecer que a infidelidade ocorre, independente da orientação sexual.

Esta crença faz com que muitos bissexuais não declarem sua orientação, para não deixarem seus pares mais inseguros. Esconder o comportamento bissexual de seu par contribui para que as pessoas com quem se relacionam fiquem confusas e inseguras, gerando um ciclo vicioso e reforçando a ideia de que “não são confiáveis”. Quem descobre em algum momento a bissexualidade do/a parceiro/a, sente-se mais enganado. 

Na minha pesquisa sobre o tema, entrevistei bissexuais que também não conseguiam entender  (ou aceitar) que tinham desejos por ambos os sexos. Aqueles que acreditavam que a bissexualidade seria um transtorno sofriam muito.

A bissexualidade, tanto quanto a homossexualidade, abre debates que envolvem juízos de valor e valores morais. Pessoas que se dizem religiosas muitas vezes rotulam como algo pecaminoso, algo a ser corrigido. A Medicina e a Psicologia declaram que a orientação sexual, por si só, não está relacionada a nenhum transtorno mental, sendo proibido tratamento para “mudar” a orientação sexual (se você souber de algum profissional que tente, denuncie aos respectivos Conselhos).

Na verdade, o armário bissexual tem duas portas: uma para homossexualidade, outra para a heterossexualidade. Abrir ambas ao mesmo tempo requer muito mais do que coragem: requer autoaceitação e entendimento. Afinal, é duplamente difícil se assumir como gostando de ambos os sexos – por vezes indistintamente, por outras com alguma preferência, seja pelo comportamento ou estilo de vida. Quem tenta buscar explicações para se justificar perante a sociedade e não as encontra sofre ainda mais.

A Psicoterapia pode ajudar no processo de autoaceitação da bissexualidade, desde que se encontre um/a psicólogo/a que não tenha bifobia, que   respeite e compreenda a diversidade sexual, sem  pressionar para nenhuma tomada de decisão.  Se você não consegue se sentir à vontade com o que você realmente deseja, fale sobre isto. Procure ajuda psi. 

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Thays Babo é Psicóloga Clínica, Mestre pela Puc-Rio, com formação em TCC pelo CPAF-RIO e extensão em Terapia de Aceitação e Compromisso pelo IPq (USP). Atende a jovens e adultos em terapia individual ou de casal, em Copacabana

Sobre a bissexualidade
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2 ideias sobre “Sobre a bissexualidade

  • 22/02/2019 em 16:24
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    Seria um bom tema de tcc para meu curso de pedagogia.

  • 25/02/2019 em 16:24
    Permalink

    Olá, Tamires, depende bastante da abertura do/a orientador/a e do link que você fará com o tema da sua dissertação.

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