… já diziam Lobão e Bernardo Vilhena, a pessoa se considera carente, achando que ‘não está legal’ se não é notada. Lembrei da música ao ler o artigo de Miriam Goldemberg no Jornal do Brasil , de 2009. Nele, a antropóloga dizia que, para as mulheres brasileiras, não chamar a atenção dos homens na rua – mesmo que por homens que não pertençam a seu ‘público alvo’ – é um termômetro de ‘algo a ser feito’. E a ação, claro, vai para o externo: roupas novas, cirurgias plásticas, maquiagem e cosméticos, bem como malhação pesada são alguns recursos tentados para reverter o quadro.

Miguel Paiva, cartunista que  lançou a Radical Chic  no JB 😀 , criou  uma historinha em que a própria, depois de se sentir arrasada pela falta de cobiça pública, medida provavelmente pela ausência de olhares ‘gulosos’,  troca de roupa para ir à feira. O sorriso dela demonstrava que sua auto-estima foi recuperada, após ouvir aquelas bobagens que alguns feirantes costumam dizer ao ver uma ‘freguesa’ bonita. É dela a pérola: “Adoro quando os feirantes, os porteiros e os pedreiros do meu bairro me chamam de gostosa: é a comunidade solidária!” (Já ouvi de mulheres de carne e osso que  passar por uma obra vitaliza e renova sua autopercepção como fêmea.)

E é nesta necessidade que a antropóloga vai focar, ao comparar a atitude de mulheres adultas brasileiras  e  a das alemãs, as quais entrevistou em viagem entre 2005 e 2007. Provocadora, a autora aponta esta como uma das principais diferenças entre a mentalidade da mulher brasileira e da alemã.  (http://jbonline.terra.com.br/leiajb/noticias/2009/05/17/sociedadeaberta/o_capital_marital.asp).

Miriam constatou que as alemãs usufruem muito mais do seu poder pessoal, de suas vitórias e conquistas, ao invés de se submeterem (e aprisionarem) ao olhar do outro – no caso, dos homens.

As brasileiras avaliam o seu valor pessoal em função do olhar masculino e, em casos extremos, até o feedback positivo de homens que não são o seu tipo ideal já serve! Estarem ou não casadas ou com um relacionamento estável assegura-lhes maior autoconfiança. Não deve ser por acaso que fez tanto sucesso a peça “Não sou feliz, mas tenho marido“, com Zezé Polessa no papel principal.  Vem daí a obsessão da mulher brasileira em parecer mais jovem, ‘gostosa’. Ser desejada assegura (ou, pelo menos, acreditam assim) que um relacionamento estável surja.  Obviamente a indústria e a mídia apoiam isto, endossando o que, nas palavras de Miriam, é a ‘miséria subjetiva’ .




O desespero das mulheres é ainda maior ao constatar que o homem brasileiro é facilmente seduzível por mulheres mais jovens. O Brasil, por  ter um enorme litoral, em que as mulheres expõem o corpo ainda mais,fica ainda mais acirrada a disputa pelos poucos homens – e aí já estão incluídos até os não disponíveis, para algumas mulheres, basta respirar!  Com isto, o envelhecimento, que vem para todos – homens e mulheres – parece ainda mais apavorante para a maioria das mulheres já que as estatísticas apontam que, quanto mais velhas, maiores as dificuldades de manterem um relacionamento. Ou recomeçar uma vida nova, caso rompam o seu.

E o que cada uma pode fazer para combater esta ansiedade e ‘miséria subjetiva’?

Sugestões?

Ps: este post foi publicado inicialmente em 2009, porém, devido à invasão no blog, tive de deletar o anterior.

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Thays Babo é Mestre em Psicologia Clínica pela Puc-Rio, associada da ATC-Rio e atende no Centro.

… Se ninguém olha, quando você passa…
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