Nathalie Portman  já mostrou  que é excelente atriz, especialmente em Closer e Cisne Negro.  Formada em Psicologia pela Harvard, escolhe na maioria das vezes bons papéis. Surpreende que tenha participado  em No strings attached (cujo título em português é Sexo sem Compromisso),  típica comédia romântica americana. Talvez, ela quisesse apenas se divertir um pouco depois de tanto sofrimento vivendo a frágil Nina em Black Swan. O contraste entre as duas personagens é enorme: Nina sofre para viver sua sexualidade, Emma a vive sem culpas.   O filme é reprisado à exaustão nas TVs. Mas, caso não tenha assistido ainda, cuidado com os spoilers nos comentários a seguir…

Este filme ajuda a pensar nos relacionamentos homem-mulher nos dias de hoje. O tipo de parceria sexual que Emma e Adam estabelecem está se tornando cada vez mais comum. É um relacionamento casual. “Amigos que transam”. Talvez o precursor do gênero chick flick seja Harry e Sally. Mas a diferença entre Sally e Emma é enorme. Sally era romântica – apesar de debochada, como a gente viu na antológica cena do orgasmo na lanchonete. Mas  entra em crise após uma noite de sexo com Harry que, por sua vez, também fica em pânico: ele estava tão apegado ao papel de sedutor que não podia demonstrar afetividade. Eles não conseguem conversar sobre o que aconteceu.

Em Sexo sem compromisso, o inverso acontece: Emma (Nathalie Portman), jovem médica, é bastante bem resolvida quanto ao exercício da sexualidade, sem culpas. E Adam é o que sofre, sentindo falta do envolvimento já que Emma estabelece logo de início regras sobre como deve ser a relação dos dois. Apenas cama. ‘Sex friends‘ ou ‘friends with benefits‘. Quando vão para a cama, Emma vai totalmente contra o estereótipo das mulheres: nada de preliminares, ela quer uma rapidinha antes de ir pro trabalho. E ela não fica nem um pouco constrangida por ter  preservativos na mesinha de cabeceira. Este é um ponto super positivo do filme: Adam não discute a exigência nem argumenta que ‘quebrou o clima‘ – razão que muitos homens alegam para dispensarem a camisinha, se expondo (e também a parceira) ao risco de contraírem IST´s ou de uma gestação não planejada. O comportamento sexual deles é responsável e não parece relacionado ao fato dela ser médica. Pode surpreender algumas pessoas por ser uma heroína nada romântica.

Adam contraria o estereótipo de homem. Não é naturalmente ‘pegador’: é um homem ‘gracinha’, sensível e romântico, em contraponto a Emma, que lembra a personagem de um filme de Robert Altman: Dr. T e as mulheres. Bree (Helen Hunt) era também bastante racional e controlava as relações e seus parceiros, para surpresa e descompasso do ginecologista Dr. T – interpretado por Richard Gere.  Uma representante estereotipada da mulher feminista. 

Nem Adam e nem Emma sentem culpa por um relacionamento exclusivamente sexual, levando a questionar se realmente as novas gerações já conseguiram superar estas contradições entre amor e desejo, ou é algo mais localizado, da cultura americana? No Brasil, muitas mulheres ainda se sentem culpadas por vivenciarem a sexualidade sem estarem em uma relação compromissada, o que pode ter a ver com aspectos religiosos, tão característicos do país.

Sexo sem Compromisso faz pensar se é realmente possível ter um relacionamento sexual sem gerar expectativas. Na vida real, se as regras não forem muito bem estabelecidas (como no filme), sexo entre amigos pode causar mágoas, abalando a amizade. O que é dito e declarado como não querer se envolver, na vida real, muitas vezes é interpretado como um desafio. Ou mera questão de tempo. E aí, depois de semanas, meses ou até anos de ‘investimento’, a frustração pode ser grande ao se descobrir que a outra pessoa se envolveu – de imediato – com outra. “Como assim? Por que ela/ele e não eu?“. Enfim, cuidado sempre é bom ter em se tratando de relacionamentos amorosos. E cuidados especiais quando envolvem amizades verdadeiras.

Tirando um pouco do foco de relacionamentos, dois outros aspectos chamaram minha atenção no filme. Um é a relação que Adam tem com seu pai, vivido por Kevin Kline. Bem sucedido e admirado, o pai compete com ele o tempo todo, reagindo muito mal ao envelhecimento. Já a mãe de Emma, viúva, tenta falar sobre seu relacionamento com um namorado enquanto a moça tenta evitar o assunto – de uma forma que muitos jovens fazem, constrangidos ao constatarem que seus pais ainda têm vida sexual. O outro aspecto é a rede de amigos dos dois protagonistas: tanto Adam quanto Emma têm amigos que apoiam, que os ‘salvam’, mesmo que por caminhos tortuosos. Não são do tipo que jogam contra: trazem um pouco de bom senso quando está faltando.

E, na vida real, o apoio dos amigos e as relações com o pai ou a mãe têm uma influência muito maior do que se imagina. Mas isto seria tema para outro post.  Para encerrar deixo a dica de um filme maravilhoso sobre  sexo sem compromisso: o excelente filme francês “Uma relação pornográfica“. Aguardo os seus comentários sobre estes filmes e os relacionamentos de hoje em dia. 
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Thays Babo é Psicóloga Clínica, Mestre pela Puc-Rio, com formação em TCC pelo CPAF-RIO e extensão em Terapia de Aceitação e Compromisso pelo IPq (USP). Atende a jovens e adultos em terapia individual ou de casal, no Centro do Rio e em Copacabana.

Amarrações de Hollywood
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11 comentários sobre “Amarrações de Hollywood

  • 19/03/2011 em 16:24
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    Acorda. Emma não é nome de ave. Só em português.

  • 19/03/2011 em 16:24
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    rsrsrs Acordei, Fabricio! escrevi o texto de madrugada. Sabe como é, a privação de sono já estava fazendo que eu desse significado a detalhes que eram apenas isto: coincidências. Agora, de volta à realidade, acrescentei coisas ao texto, espero que não sejam delirantes também…

  • 19/03/2011 em 16:24
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    Ré ré ré. Foi boa, essa. Talvez eu até anime de ver o filme, pelo que você escreveu.
    Ah, sobre o Cisne Negro, eu ia comentar outro dia e esqueci. Você xingou de insensível o crítico que chamou o filme de “terror”, mas parece que o próprio diretor classificou o filme assim! Eu li isso em duas críticas interessantes, uma na revista Filmes Polvo e outra no blog do Ricardo Calil. É engraçado que o Filmes Polvo elogiou o lado psicológico e criticou o lado terror, e o Calil escreveu o contrário. Por isso que é bom a gente ler pessoas diferentes falando do mesmo filme.

  • 19/03/2011 em 16:24
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    Thays, adorei a critica. Mesmo tendo sido escrito de madrugada, seu texto tá muito bem escrito. Sempre tem um comediante frustrado que, por inveja, escreve alguma crítica. Gostei do filme, achei o tema muito contemporâneo, e a forma como abordaram não ficou nem um pouco pornográfica. Natalie ganhou mais uns pontinhos pra variar, agora o Ashton tá cansativo. Todos os filmes é o mesmo. Como é um comédia romântica (em geral, água com açúcar), a gente sabe que o final ia ser feliz, porém o que acontece até chegar este é o que interessa. E o filme não deixou a desejar. Achei legal a inversão mulher durona, homem apaixonado-desiludido.

  • 28/03/2011 em 16:24
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    Thays, adorei ler o ponto de vista de uma psi, assim como eu… li algumas críticas sobre o filme… todas falando horrores… mas, fico pensando o que será que as pessoas pretendem quando entram num cinema para assistir uma comédia romântica, com raríssimas excessões elas são sempre previsíveis, mas, na minha modesta opinião, em nada se pretendem pretenciosas… cumprem sua função, fazer-nos dar boas risadas e fazer graça das relações descompromissadas, aliás, diga-se de passagem… a febre da contemporaneidade.

  • 28/03/2011 em 16:24
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    Oi, Renata, que bom que você gostou. . Em breve devo assistir a Retrato de Dorian Gray e, certamente, vai ter uma resenha. É sempre bom trocar ideias.
    Obrigada pela visita, volte sempre

  • 22/04/2011 em 16:24
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    Thays , não vi pois tenho um certo preconceito para com o Ashton porém ,adoro a Nathalie e ,pelo seu belo texto,resolvi assistir,

  • 22/04/2011 em 16:24
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    Muito boa a sua análise parabéns. Gostei do seu blog também. O filme é ótimo e retrata o que esta acontecendo na sociedade hoje em dia. Pelo menos no meu ponto de vista rs.

  • 24/04/2011 em 16:24
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    Paulo Sergio, depois que vir o filme, volte aqui para dizer se concordou com algo! Obrigada pelo seu comentário

  • 24/04/2011 em 16:24
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    é, pelo menos na sociedade urbano ocidental. Certamente, de acordo com o local em que se mora as coisas mudam. Bastante! Obrigada pelo seu comentário!

  • 24/04/2011 em 16:24
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    Oi, Gustavo, desculpe a demora em responder! Obrigada pelo comentário, volte sempre para ver as novidades!

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