O amor é uma das questões centrais na vida do ser humano. E, na sociedade ocidental, é muitas vezes confundido e restrito ao relacionamento amoroso. Assim, ainda é enorme a pressão social para que as pessoas se fixem  em um relacionamento, como se isto fosse um atestado de ‘saúde mental’.

Estar só – o que isto diz de você?

Em épocas festivas, como Natal, réveillon e dia dos Namorados,  quem, por razões variadas, não está namorando, não se  casou ou não tem nenhum “rolo”, pode até fugir dos eventos sociais, para não ter de enfrentar perguntas de familiares ou amigos. Algumas  pessoas se mantêm  em relacionamentos desprazerosos, ou até tóxicos,  por não quererem enfrentar questionamentos. Ou, pior: acreditam mesmo que  não ter ‘alguém’ indica algum problema. No Rio, há alguns anos foi encenada uma  peça intitulada  “Não sou feliz, mas tenho marido”, que reflete bem esta mentalidade.

Status de relacionamento

As redes sociais permitem uma certa vigilância sobre a vida amorosa de quem gosta de compartilhar fotos de sua vida privada. Os contatos de um casal podem acompanhar se o casal briga, faz as pazes, retoma – o que acaba aumentando a pressão, que antes era exercida apenas pelas pessoas mais próximas, e interferindo na própria dinâmica do relacionamento.

Na verdade,  status de relacionamento não deveria ser o  critério para mensurar o nível de felicidade de ninguém. Por mais que a  cultura popular ainda alimente crenças como  ‘é impossível ser feliz sozinho‘, através de músicas, filmes e literatura, muitos relacionamentos não devem mesmo ser mantidos, pelo bem da sua saúde física e mental.

Você escolhe: glória ou dor?

Paul Tillich faz uma distinção importante entre os dois estados: “A linguagem (…) criou a palavra solidão para expressar a dor de estar sozinho. E criou a palavra solitude para expressar a glória de estar sozinho”. Assim, não estar em  um relacionamento amoroso não necessariamente estará relacionado com tristezaabandonorejeição. Mas, infelizmente, ainda há uma crença de que ‘estar só é estar triste‘. Ponto. Mas você não precisa alimentá-la – afinal, ela tem um alto custo emocional. 

foto de Nicole Harrington – Unsplash

Muitas pessoas que se jogam em relacionamentos amorosos sucessivos, querem evitar o encontro consigo mesmas. Ou estão, na verdade, viciadas na paixão. Querem as emoções de início – e aí, tanto faz, na verdade, quem seja o seu par, desde que proporcione estas emoções. Com isto, podem emendar um relacionamento no outro, na já conhecida monogamia em série. Quando as emoções prazerosas começam a diminuir e as diferenças surgem, hora de buscar o próximo relacionamento. Sem flexibilidade e sem capacidade de negociação e por não terem parado para  perceber o que deu errado no relacionamento anterior, acabam saindo do relacionamento. E mais uma vez não refletem  sobre como contribuíram para que não fosse adiante. E assim, o ciclo se perpetua.

Monogamia em série

O resultado:  as pessoas se sentem cada vez mais sós, mais vulneráveis, e aumentam suas defesas – impedindo-se de receberem justamente o que mais querem: amor. E o que acontece com você? Você consegue se comprometer, não só nos momentos fáceis e prazerosos mas também nos de crise? Ou foge? Você consegue estar só? Ou se encaixa no perfil de monógamos sequenciais? 

Analise o seu momento presente, observe o que você gosta na pessoa que se tornou e é hoje. E lembre-se que, antes mesmo de entrar em alguma  relação – aí, não só amorosa, mas também de amizade ou profissional –  autocuidado e autocompaixão são fundamentais para manter sua saúde mental. Será que o que  impede você de ser feliz hoje,  aqui e agora,  é apenas (ter ou não) uma parceria amorosa? 

Foto de Elizabeth Tsung-em Unsplash

O amor é um aprendizado, que vai na contramão do que a mídia e a cultura popular apregoam. Não é inato. Como dito anteriormente, modelos que recebemos e mantemos sem questionar nos fazem dificultar nossas relações afetivas, de todos os tipos. Avalie suas crenças românticas, questione as que realmente lhe servem na vida real. Expectativas  muito altas  dificilmente serão atendidas. Pequenos gestos e sinais que refletem a qualidade do relacionamento acabam passando desapercebidos. Com a frustração, a pessoa por vezes se descontrola. Ou se decepciona.  E assim, a insatisfação pessoal continua. 

Assuma a sua responsabilidade na vida que você tem e na que você quer ter. Como você pode se comprometer e ir na direção que você quer? Se você ainda não começou, em 2019, procure ajuda especializada. Conhece-te a ti mesmo, como diziam os gregos. Observe e  se comprometa com os valores que  são realmente os seus. 

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Thays Babo é Mestre em Psicologia Clínica pela Puc-Rio, na linha de Família e Casal, com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental e Extensão em  Terapia de Aceitação e Compromisso. Atende a jovens e adultos, em terapia individual, de casal ou pré-matrimonial em Copacabana.

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