No início de setembro de 2011 estreiou no Rio de Janeiro Medianeras, filme argentino, co-produzido pela Alemanha e Espanha. Segue em cartaz até hoje, aclamado pela crítica. O subtítulo brasileiro (Buenos Aires na era do amor virtual) é instigante, principalmente para quem estuda relacionamentos amorosos na ‘pós-modernidade’ (como eu) ou simplesmente vive nos anos 2000, mesmo que no Brasil. É um filme “cosmopolita” e eu não teria como ‘bypassar’. Finalmente consegui encontrar uma sessão em um horário compatível num cinema próximo…

Gustavo Taretto retrata o dia-a-dia de duas pessoas que estão muito próximas, tem vidas e neuroses parecidas – complementares? – mas ainda não se conhecem. Vizinhos na Avenida Santa Fé, em Buenos Aires, vivem Martín (Javier Drolas, uma versão mais bonitinha do Marcelo D2) e Mariana (Pilar López de Ayala, atriz espanhola, que eu acho ‘a cara’ da Jennifer Connely) . Com suas vidas limitadas – por eles mesmos – vivem reclusos a maior parte do seu tempo. Mas anseiam por ar e luz, querem se relacionar. Tentam e não conseguem. O nome da rua não deixa de ser uma ironia, talvez mais um recurso sutil para disfarçar o drama existencial com doses (econômicas) de humor .

Martin é um fóbico social, recorre a remédios prescritos pelo seu psiquiatra para suportar viver em uma quitinete sombria. Webdesigner, está há anos sem um relacionamento amoroso consistente. Martin só anda a pé por Buenos Aires.

E nem tanto assim: desde que sua namorada se foi, deixando apenas o caozinho, este se deprimiu. Afinal, morar em uma ‘caixa de sapatos’ com alguém que não gosta de sair para passear não deve ser fácil… Em sua mochila, Martin carrega seu mundo portátil, seu kit sobrevivência, que acaba com a sua coluna, e o leva a buscar mais medicamentos. Não por acaso se define como hipocondríaco.

A idade dos personagens principais não fica clara. Provavelmente passaram dos 25 anos – mas não muito. Por isto, provavelmente, Medianeras ‘conversa’ melhor com os que viveram o boom da internet e entraram na maturidade mergulhados no mundo virtual. Como não se identificar com a fala de Martin, que diz: “Há 10 anos sentei na frente do computador e tenho a sensação de que nunca mais levantei…” ?




Porém, o filme NÃO é sobre internet. Há relativamente poucas cenas sobre chats, por exemplo, um dos recursos mais usados na vida real para tentar aplacar a solidão. A solidão e o isolamento são talvez os principais condutores de Martin e Mariana. Medianeras toca outros públicos, quer acessem ou não. Relembra Denise está chamando, mas com mais leveza. Assim, traz mais esperança a quem limita suas explorações pelo mundo. Como Martin.

E também como Mariana. Arquiteta, só conseguiu emprego como vitrinista – o que não contribui muito para sua autoestima profissional. Parte de seus desejos, projeta nos manequins – tanto nos que leva para casa onde ensaia (ou projeta) seus afetos como nos que enfeitam as vitrines. Tendo rompido um relacionamento amoroso, detecta, em retrospectiva, o afastamento progressivo do casal, pelo número decrescente das fotos tiradas ao longo dos anos. Claustrofóbica, não usa elevadores, o que restringe bastante suas possibilidades. O livro Onde está Wally é sua referência literária e ajuda a manter uma ponta de esperança.



Uma cena de Manhattan, de Woody Allen, explicita a melancolia e a impossibilidade de ficar. Pelo tempo que está em cartaz por aqui, creio que Medianeras fale tão de perto a quem mora em Buenos Aires como a quem está no Rio de Janeiro, São Paulo ou provavelmente em qualquer outra cidade grande que engula seus moradores. Ah, e como nos filmes do diretor americano, os psicólogos do filme são ‘figuras’ mal resolvidíssimas. Não deve ter sido casual que Martin e Mariana tentam se relacionar com psicólogos. Porém, se buscavam neles a ‘cura’ para seus problemas, descobriram rapidamente que não seria assim tão fácil. Fiquei curiosa para saber a experiência pessoal do roteirista com eles… Aliás, o filme é imperdível para psicólogos – não só para uma autocrítica 🙂

Medianeras traz muito material para reflexão – ah, sim, no filme há uma explicação bem interessante sobre o que vêm a ser medianeras. Mas, assista e volte para confabular – este post foi só um aperitivo. Fica o mesmo conselho de sempre – se ainda não viu o filme, tente não assistir ao trailer. Sei, pouca gente o segue 😉 De qualquer forma, aguardo seus comentários, concordando ou não.





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Thays Babo é psicóloga, Mestre em Psicologia Clínica pela Puc-Rio e atende no Rio de Janeiro

Medianeras
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2 comentários sobre “Medianeras

  • 14/01/2012 em 16:24
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    Gostei muito do inicio, quando ele descreve Buenos Aires e o quanto o planejamento urbano (ou a falta dele) influencia no estilo de vida que seus habitantes vao levar. Parece uma bobagem, mas tem todo o sentido. E no Brasil, poderiamos contar a mesma historia varias vezes.

  • 14/01/2012 em 16:24
    Permalink

    Também achei interessantíssimo, Solange. Mas me senti – como comentei – em falta com Buenos Aires e insegura para comentar. 😉
    Engraçado que em relação às medianeras, o uso que se tem dado aqui no Rio é algo que me incomoda, mesmo sendo publicitária – já tinha pensado sobre isto, inclusive. Curioso, no prédio ao lado do que moro, algumas pessoas vazaram a fachada também – porém, não abriram janelas . Talvez por conta de legalização: simplesmente colocaram tijolos de vidro pra deixar alguma luz entrar…

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