As resenhas classificam Truman como comédia. Erro de categorização, certamente. Poderia ser uma  ‘negação’, de quem fez a classificação, mas mais provavelmente é estratégia de marketing, dourando e adoçando a pílula. Afinal, mesmo com várias cenas bem humoradas, dosadas certeiramente, o filme aborda um tema espinhoso: nossa terminalidade. Não tem jeito: é drama, dos bons. Não nos faz desidratar, chorando, mas, seria melhor descrita como  comédia dramática, forçando um pouco a barra. Saímos do cinema repensando nossas próprias vidas.

Se você não sabe nada sobre o filme e nem quer ter ideia, melhor parar por aqui. Tentarei não fazer spoiler, mas não tem muito jeito.

Psicoterapeutas e médicos não deveriam deixar passar a oportunidade de assistir. Afinal, algumas vezes se deparam com pessoas que fazem perguntas difíceis sobre seus tratamentos. Algumas podem fazer a escolha de Julian (interpretado por Dárin, maravilhoso em cena, como sempre). A Medicina, cada vez mais avançada, aumenta as possibilidades de diagnóstico e tratamento e nossos pacientes, familiares e amigos podem ter a mesma dúvida do protagonista, quando, em algum momento, a sentença de morte se apresenta. E como a encaramos? Lutando até o fim, para prolongar, e acabando com nossos dias restantes? Ou assumindo a dor e a dificuldade que é despedir-se de pessoas queridas, de projetos nunca realizados, revendo nossos erros e pisadas na bola?

Julian opta por não prosseguir com tratamentos para adiar a sua morte: simplesmente a aceita e resolve viver os dias que lhe restam de forma digna. Morando sozinho, cabe a ele tomar uma série de providências que assombram a pessoa comum e causam um aperto no coração de quem o assiste.

Quem já estudou o tema ‘terminalidade’, logo relembra a psiquiatra suíça Elizabeth Kübler Ross, que brilhantemente descreveu as fases que atravessamos ao lidar com a morte. Resolver e aceitar a finitude é o que abre a possibilidade de terminar a vida bem. E Julian consegue fazer isto – não sem dor, mas com dignidade. O filme não foca nas cenas de hospital, não o vemos em sofrimento físico. O sofrimento maior vem ao se despedir das pessoas e situações, se dar conta de sua solidão, de que a vida continuará sem ele e que ele não será insubstituível.

Não é a primeira vez que a escolha por não continuar um tratamento aparece em filmes. Outro  que trata de forma leve é E se vivêssemos todos juntos? , mas no qual  a finitude vem ao final de uma longa vida.
No canadense As Invasões Bárbaras, o professor universitário Rémy não se conforma, até quase o final do filme, com a sua morte, não vê sentido. E talvez não haja mesmo um sentido por si mesmo, nós é que temos de criar e buscar, a cada dia de nossa existência.

Em Truman, Dárin interpreta Julian, ator argentino morando em Madrid. Julian quer deixar as coisas acertadas, após descobrir que não há muito o que fazer com a metástase de câncer no pulmão. Uma de suas preocupações é arranjar um lar adotivo para seu cão, Truman, companheiro dos últimos anos. Seu amigo Thomas (Javier Cámara) vem do Canadá para ajudá-lo com os preparativos, juntando-se à prima de Julian. Enfim, Truman traz grande lições sobre amizades, relações familiares e – também – profissionais. Agradará a quem não tem medo da vida e consegue encarar de frente a única certeza que temos na nossa vida: em algum momento, ela termina. Em suma, imperdível. 

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Thays Babo é psicóloga clínica, trabalha na linha de Aceitação e Compromisso (ACT), atendendo a jovens, adultos e idosos no Centro do Rio e em Copacabana. Também faz Terapia de Casal.

Encarando a vida nos olhos
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