Lançado em 2012, o filme francês E Se Vivêssemos Todos Juntos, toca em um assunto bastante atual, que atinge cada vez mais gente: o envelhecimento. A expectativa de vida aumentou, no Brasil inclusive, graças ao desenvolvimento da Medicina e da biotecnologia, possibilitando exames e tratamentos cada vez mais potentes. Depois que passamos dos 30, o relógio parece disparar. Portanto, quer gostemos ou não da ideia,  a  velhice é para onde nos encaminhamos, ‘se tudo der certo’!

E se vivêssemos todos juntos? consegue a façanha de, mesmo tratando do envelhecimento, não se tornar sombrio em nenhum momento. Pelo contrário, não se restringe a falar de envelhecimento, perda de memória, asilos e morte. Abre discussão para algumas escolhas importantes que podemos fazer.  E o quanto antes, melhor. Provoca, ao falar também da sexualidade dos velhos. “Como assim, gente idosa tem desejo????” Fica a dica: se você acha impensável que seu (velho) pai e/ou sua (velha) mãe tenha desejo, acorde. Faça terapia para aceitar isto. Cada vez mais é esperado que tenham desejo. E isto faz parte da saúde. As descobertas científicas tornaram possível este desejar e, se você não consegue lidar com o fato da vida sexual se estender também, precisando de bons cuidados,  você terá problemas, mais cedo ou mais tarde – seja com seus pais ou em seus relacionamentos amorosos, à medida em que o tempo passa.

No filme, a ideia de um grupo de amigos idosos morarem todos juntos, é largada ao acaso, em um jantar entre dois casais e um amigo, todos com mais de 70 anos. Agrada logo de cara justamente a um dos 5 amigos que mais cedo enviuvou e que, de certa forma, ainda tira certo proveito da recente ‘solteirice’, vivenciando a sua sexualidade. Para ele, a princípio, seria bem conveniente: seria cuidado e acolhido por amigos. As mulheres se opõem, achando a ideia maluca, logo de início. Porém, algumas reviravoltas fazem com que repensem a ideia da moradia comunitária que, logicamente, acaba beneficiando a todos.

De certa forma, esta possibilidade diminui  a famosa síndrome do ninho vazio, tão falada em outros filmes e relatada em teses acadêmicas. Em alguns pontos, E Se Vivêssemos…?  guarda pontos em comum com o britânico O Exótico Hotel Marigold. Porém, em O Exótico… , os velhinhos rompem com a rotina e saem de suas casas, indo em busca de algo totalmente diferente, na Índia. E em E se Vivêssemos, os franceses ficam na mesma cidade, redimensionam suas vidas e se adaptam às condições atuais… Em comum, o filme de Stéphane Robelin tem também um jovem, Dirk (Daniel Brühl, de Adeus, Lênin), fazendo contraponto com os amigos, como  um cuidador contratado. Misto de ajudante para os afazeres domésticos, ele os vai salvando de algumas enrascadas individualmente. Tanto aprende como ensina também.

A velhice é sempre uma incógnita: muitas vezes tem de se enfrentar a degenerescência, a perda da memória. Porém, cada vez, persegue-se o prolongamento da vida. Ou se enfrenta, com altivez. É uma escolha, heroica, combatida por muitos médicos, como se vê no filme, quando um médico bate à porta da casa dos amigos, tentando reverter a decisão de uma das personagens.

O roteiro aborda tudo com  uma delicadeza primorosa. Reúne um elenco  de veteranos franceses mas conta também com as atrizes americanas Jane Fonda e Geraldine Chaplin.

Vale assistir para repensar as relações interpessoais familiares e conjugais, bem como as questões existenciais (envelhecimento, finitude, perdas, traições, relações de amizade).  E também para planejar o que se quer fazer na etapa final da vida. Por que não? O tempo voa… 

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Thays Babo é psicóloga, Mestre em Psicologia Clínica, com formação em TCC e extensão em Terapia de Aceitação e Compromisso, pelo IPq da Usp. Atende a jovens e adultos, no Centro do Rio e em Copacabana, com hora marcada, em terapia individual ou de Casal.

Vivendo mais e melhor
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