Todos nós conhecemos pessoas insatisfeitas em uma ou mais áreas da vida. Às vezes, a insatisfação se restringe ao relacionamento amoroso; noutras, se deve à vida profissional, acadêmica ou familiar. Há também a insatisfação com o corpo que pode se transformar em transtornos alimentares – e merece um post exclusivo sobre o tema. Há aquelas pessoas que parecem ter uma nuvem negra constantemente pairando sobre suas cabeças, com todas as áreas ‘dando errado’.

Mas o que causa tanta dor psíquica? Abordagens mais recentes da Psicologia mostram que grande parte do nosso sofrimento é causada pelos nossos pensamentos e não pela realidade. Ou seja, pelo que pensamos e que, muitas vezes, não têm nenhum fundamento real, substancial. Assim, nossa maior riqueza, que nos diferencia dos animais irracionais, que é a capacidade de pensar, relembrar e planejar, pode ser também a maior causa de sofrimento.  Nossa mente pode ser uma grande amiga ou terrível inimiga. Como?

Quando remoemos crenças e lembranças, muitas vezes lamentando o que perdemos ou o que se passou. Ou quando projetando o futuro, muitas vezes sombrio e desesperador, imaginamos desastres e catástrofes, diálogos que nunca acontecerão. A imagem abaixo,  amplamente conhecida nas redes sociais, ilustra bem o que acontece: saímos da experiência do momento presente e vamos para o futuro ou para o passado. E com isto, perdemos o que temos à frente, no aqui e agora.

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Simplificando bem, pode-se dizer que pessoas com tendência à depressão têm maior tendência a viverem com suas lembranças, boas ou ruins, vivem no passado. Perguntam-se muito o que poderia ter sido se tivessem feito escolhas diferentes.  A pergunta “E se?” só aumenta angústia. Quem tem tendência à ansiedade, vive esperando um futuro sombrio, perigoso e, às vezes, até contribui para que o pior se concretize, numa espécie de profecia auto realizada.

 Às vezes, uma mesma pessoa tem ambas as características. Perde o hoje, única realidade que se tem, onde se pode fazer algo – até para planejar o futuro melhor, de acordo com os valores pessoais.

E como fazer diferente? Como mudar a chavezinha mental? Stephen Hayes, um dos criadores da Terapia de Aceitação e Compromisso, é autor de um livro cujo título é instigante: Get out of your mind and into your life, que não foi publicado ainda por aqui. Mas, como “sair de dentro da sua mente e entrar na sua vida“? Reconhecer a dificuldade de sair da inércia e procurar ajuda deveria ser o primeiro passo. Muitas vezes leva tempo. Como psicóloga, muitas vezes sou contactada uma primeira vez para saber sobre disponibilidade de horários. Passa-se um certo tempo, e só meses depois a pessoa retoma o contato e começa. Há um tempo interno. Ao longo das sessões, vem surgindo à consciência o que causa o sofrimento ou insatisfação e o que se pode fazer, ou não, para mudar, na direção do que se quer. Não é fácil. Nem todo mundo suporta. Quando se procura psicoterapia, muitas vezes se espera que o/a psi resolva tudo. Logo de início, bons psis dizem que o trabalho mais difícil cabe a quem procurou a psicoterapia. Jogamos uma luzinha na direção do que pode estar contribuindo para o sofrimento mas é escolha do(a) cliente continuar clareando a área. Talvez os passos seguintes sejam mais difíceis de dar.

Importante frisar que nenhuma abordagem de psicoterapia pode propor extinguir o sofrimento. Sofrer faz parte da vida. Assim como bons momentos, alegrias, encontros acontecem, perdas, separações, doenças, envelhecimento e a morte também chegam, muitas vezes de forma inesperada. A psicoterapia pode, no entanto, ajudar a expandir a consciência e a abertura diante da vida – apesar de todas as possibilidades de sofrimento. Claro que, muitas vezes a pessoa não quer (algumas vezes não pode, mas no mais das vezes nem tenta) mudar hábitos ou romper um relacionamento, pedir as contas, se mudar, afastar-se de quem lhe faz mal. Por isto, tanta gente desiste ou opta por uma terapia exclusivamente medicamentosa, com a ilusão de que será suficiente. Em geral, não é. 

Nas Olimpíadas do Rio, vários atletas brasileiros falaram da importância de fazer psicoterapia, para deixar para trás alguns lembranças de  fracasso, depois de perder algum título importante. Um deles foi o Diego Hipolyto, que creditou parte da sua conquista à sua psicóloga, que ajudou a focar no presente e deixar no passado as falhas. No dia-a-dia de cada um, atleta ou não, há inúmeros pensamentos negativos, que podem ser paralisantes se os alimentarmos.

Lembranças mais remotas, que nem conseguimos acessar facilmente, de vez em quando vêm com força total. Stephen Hayes, em um depoimento muito pessoal, relata em uma apresentação como percebeu que uma situação ainda repercutia na sua mente, em situações recentes e como aprendeu a lidar com a lembrança.

Crenças familiares, tais como ‘o mundo é perigoso’, ‘ninguém é confiável’, ‘todos os problemas são sua culpa’, são alguns dos muitos exemplos que impedem dar um passo noutra direção. Dê-se a chance de experimentar um novo olhar. Não alimente a crença de que psicoterapia é coisa para maluco. Ou de que é só de quem não tem amigos. O setting terapêutico é um lugar em que a pessoa pode deixar as máscaras de fora e encarar o que dói, os sentimentos mais negativos e doloridos que, às vezes, não se consegue compartilhar com mais ninguém. 

Aprenda a ficar no momento presente, a diferenciar o que é real ou não, o que é útil para você caminhar na direção dos seus valores pessoais. E a enfrentar seus medos, respeitando-se, com auto cuidado, auto compaixão, estendendo este mesmo carinho para as suas relações pessoais. Experimente. Faça psicoterapia. 

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Thays Babo é psicóloga, Mestre em Psicologia Clínica pela Puc-Rio, com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental pelo Cpaf-Rio e curso de extensão em Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), pelo IPq- USP.  Atende no Centro do Rio e Zona Sul a jovens e adultos, em terapia individual ou de casal.

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