Já falamos no blog sobre como a depressão de uma pessoa próxima, amada, nos afeta e também sobre como podemos ajudar. Agora é a vez de falarmos sobre como lidar com – e amar – alguém ansioso. Antes de mais nada, a boa notícia é que é possível tratar a ansiedade.

Durante a pandemia de coronavírus, quem não é ansioso? Na verdade, é importante distinguir o que é sentir ansiedade de sofrer de transtorno de ansiedade.

Durante o confinamento, a terapia online pode ajudar a regular a ansiedade. E, se você estava com acompanhamento psiquiátrico antes da pandemia, não o abandone, não suspenda medicação por conta própria. Mantenha contato com o(a) profissional que lhe atendia antes.

Ansiedade

Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) apontam que o Brasil é o país mais ansioso do mundo. Portanto, é bem provável que alguém próximo a você sofra deste transtorno – se não for você mesmo/a.

Apesar deste quadro, o preconceito em relação aos transtornos mentais continua firme e forte. Devido à psicofobia, muitas pessoas que precisariam de atendimento não buscam ajuda especializada.

Há vários medos envolvidos. O possível paciente teme, por exemplo, precisar tomar medicação e ficar dependente de remédios. Outro medo bastante comum é quanto ao estigma: usar medicamento significaria ser ‘louco/a. Ou fraco/a.

Entendendo a ansiedade

De forma bem resumida, a ansiedade é uma preocupação com algo que ainda não aconteceu, com o futuro. Porém, nem tudo o que se pensa, mesmo que possa acontecer não se realiza. É apenas uma ideia.

A ansiedade surge graças à capacidade  humana de pensar,  de ir e vir no tempo. Ao relembrar uma experiência traumática, ou baseada em informações sobre experiências de outras pessoas, a pessoa ansiosa generaliza, imaginando que a mesma situação irá se repetir.

Segundo as teorias evolucionistas, a ansiedade é antiquíssima:  nossos ancestrais viviam em um mundo perigoso, cheio de predadores. Aqueles  que se recolhiam mais cedo para suas cavernas, sobreviviam.

Somos, pois, descendentes dos sobreviventes e a ansiedade provavelmente consta na nossa história genética. 

A pessoa ansiosa sabe que a maioria de suas preocupações, felizmente, não se confirma. Mas, às vezes duvida, pensa “e se desta vez acontecer mesmo?” De tanto acreditar no que pensa, ela começa a se comportar de forma evitativa diante de algumas situações e sua vida fica bem limitada

Causas e tipos

Existem causas externas – uma catástrofe que aconteça, a instabilidade na família ou mesmo pai e/ou mãe ansioso/a/s, que ensinam que o mundo é perigoso, que não se pode confiar nas pessoas e que é necessário controlar ao máximo para evitar sofrimento.

Ou seja, a ansiedade é um sofrimento mental que pode surgir da observação do comportamento de pessoas importantes na sua vida.

Não descuide da sua saúde mental – a ansiedade pode ser muito limitante. E estressante.

Na última versão do Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders – Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais -, o DSM-V, foram revistos os critérios diagnósticos.

O DSM-V classificou assim as variadas formas de ansiedade:

  • Transtorno de Ansiedade de Separação,
  • Fobias,
  • Transtorno de Ansiedade Social (Fobia Social),
  • Ansiedade de desempenho, 
  • Transtorno de Pânico,
  • Transtorno de Ansiedade Generalizada,
  • Transtorno de Ansiedade Induzido por Substância/Medicamento
A ansiedade prejudica seus relacionamentos  interpessoais

Não é só a pessoa ansiosa que sofre. Parentes, amigos e cônjuges sofrem junto. Quem é ansioso teme situações improváveis, algumas vezes banais e, na tentativa de reduzir a ansiedade, tenta controlar as situações. Pode vir a ser impositivo, gerando conflitos desnecessários.

Tentar controlar as situações também pode limitar a vida, quando se passa a evitar  situações ou ambientes, restringindo as possibilidades de experiência.

E ao evitar a situação, acaba reforçando a ansiedade. Se você não enfrenta, não pode desmentir o que você pensou, certo? 

Parceiro/a/s de pessoas ansiosas deveriam buscar ajuda psicológica para si também, para conseguirem lidar com esta condição do seu par, preservando o  o relacionamento (mais abaixo, 22 dicas) – e para protegerem sua saúde mental também.

A ansiedade pode ser boa?

Eventualmente, em certa medida, a ansiedade pode ser boa e produtiva, ao  proteger de riscos desnecessários. Mas qual o  limite entre o saudável e o patológico?

Como em vários outros transtornos, a inflexibilidade psicológica e cognitiva caracterizam a ansiedade.  Não adianta saber (cognitivamente) que o que se pensa provavelmente não acontecerá. Ela aposta na chance de que irá acontecer, ou tem o pensamento mágico de que irá conseguir impedir.

A pessoa com um diagnóstico de ansiedade faz um erro cognitivo comum: catastrofiza, sempre esperando o pior. Mesmo com evidências de que o que ela imagina não vai acontecer, não consegue parar de se preocupar. Outro erro cognitivo comum é a generalização de uma situação ruim.

O que fazer? 

Você não consegue saber tudo o que se passa na mente da pessoa ansiosa. E, seus conselhos não só não ajudam como, pelo contrário, podem gerar mais ansiedade, raiva ou afastamento. A pessoa pode se sentir julgada, criticada.

Não tente minimizar ou desqualificar o que uma pessoa ansiosa sente – ela sente na pele dela. Por mais que você seja uma pessoa empática, a emoção é dela, não sua.  Então, preste bem atenção ao que não dizer

Raven Fon listou 22 coisas importantes para quem tem amigos ou amigas que sofram de ansiedade. Se você está em um relacionamento  amoroso, íntimo, com alguém que sofre de ansiedade, deve observar bem estas dicas. 

  1. Por mais que  você ache a causa da ansiedade  totalmente irracional, é muito real para ele/a;
  2. A ansiedade pode surgir a qualquer momento e quando ela surgir a única coisa que você pode fazer é dar apoio;  
  3. Eles não estão dispensando você. É difícil fazer planos e falar ao telefone é, às vezes, igualmente. Nem isto  significa que eles não querem  passar um tempo com você e conversar – simplesmente não podem.
  4. Seja paciente com as pessoas ansiosas;  nem sempre a ansiedade parece um ataque de pânico. Às vezes, se expressa como raiva, ou pode parecer com uma grande frustração ou aborrecimento.
  5. Não leve para o lado pessoal se elas demonstrarem frustração ou raiva – não é sobre você.
  6. Mesmo quando as coisas são maravilhosas, há aquela ansiedade e medo de algo horrível ao virar da esquina. A felicidade é fugaz, na melhor das hipóteses.
  7. Quando estão calados, nem sempre é porque estão tristes, entediados ou cansados. Pelo contrário, há tanta coisa acontecendo em sua mente que é difícil acompanhar tudo o que acontece ao seu redor.
  8. Ansiedade nem sempre é explicável. Às vezes, as pessoas ansiosas nem   sabem porque estão se sentindo assim.
  9. Sentem muito por todos os convites que recusam, pelo comportamento irracional e coisas ofensivas que eles disseram quando estavam se sentindo sobrecarregados ou assustados. Sentem muito que a ansiedade deles também lhe machuque. – às vezes, passada a situação, o sentimento é de vergonha, que pode levar ao afastamento e piorar o quadro.
  10. Elas podem parecer que querem se isolar – mas não  desista. Reforce que  você ainda se importa e quer vê-los. Continue convidando-os – significa muito o que você pergunta.
  11.  Ansiedade faz com que examinem tudo, o tempo todo. Pode ser exaustivo. – checam muito a situação para minimizar riscos e evitar problemas.
  12.  Não tente “corrigir” a ansiedade.  Apesar de muita gente ter um remedinho de S.O.S à mão, experimente outro caminho: a aceitação. Como par amoroso de alguém que sofre de ansiedade, também trabalhe a sua aceitação de que a pessoa que você ama tem  este traço. A ansiedade já existia, provavelmente, antes de você chegar. O simples fato de aceitar já irá diminuí-la, sem que a pessoa se sinta “defeituosa”. Todo mundo fica ansioso/a de vez em quando.
  13.  Ansiedade nem sempre é óbvia – algumas pessoas não percebem sua própria ansiedade, já que ela é tão natural. Mas você pode dizer o que percebe, abstendo-se de julgar ou de tentar resolver.
  14. Se estão desconfortáveis ​​fazendo algo, pode deixar de fazer. Forçar o problema só piora a ansiedade. Sorria e siga em frente.
  15. A interação social é difícil para algumas pessoas com ansiedade. Não presuma que seus cancelamentos repetidos em seus planos estejam de alguma forma relacionados a eles serem hostis ou preguiçosos. Quando você realmente precisar deles, eles estarão lá para você.
  16. A última coisa que precisam ouvir de vocêé “apenas supere isso” ou “você está sendo bobo/a”.
  17. Continue convidando-os a sair e fazer coisas com você. A ansiedade oscila de um dia para o outro  – alguns dias será mais fácil  que aceitem; portanto, tente outra vez.
  18. Quando  dizem que atingiram o limite e não podem mais aceitar, eles realmente querem dizer isso. Respeite isso e dê-lhes espaço para respirar.
  19. Quando  dizem que não podem fazer algo, são eles que sentem o maior desapontamento.
  20. Às vezes,  só precisam ficar sozinhos. A ansiedade não pode ser abalada por “fazer algo divertido” e não pode ser remediada usando os mesmos métodos que você usaria para alguém que foi demitido recentemente. Eles não são loucos ou chateados, eles só precisam recentrar e relaxar.
  21. Quando  falarem com você, eles examinarão cada palavra – o contexto, a gramática, as insinuações. E eles podem continuar obcecados com essas conversas nos próximos anos. – dependendo inclusive do seu histórico, da sua linha de psicoterapia, por exemplo, uma palavra fora do lugar pode ser interpretada de forma totalmente distorcida. Tenha paciência.
  22. Pessoas ansiosas não são sua ansiedade. – são pessoas que sofrem, são únicas e tudo o que elas querem (e precisam) é que sejam aceitas e amadas incondicionalmente.
Como tratar?

Caso você seja uma pessoa ansiosa,  procure ajuda profissional. Siga as orientações de profissionais da área da saúde mental.

Mudanças no estilo de vida podem ser o suficiente: inclua atividades físicas, meditação e cuide da sua dieta. A psicoterapia facilita o processo. Aprendendo a observar seus pensamentos, você os questiona e, assim, vai regulando a sua ansiedade.

Eventualmente, a medicação pode ser necessária, com acompanhamento médico. Continuando o tratamento, tendo sido mantidos os hábitos saudáveis e a psicoterapia, os remédios podem até ser retirados, seguindo as orientações médicas. 

Alguma sugestão? Compartilhe com quem se interessa pelo assunto. 

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Thays Babo é psicóloga e publicitária, Mestre em Psicologia Clínica pela Puc-Rio. Com formação em TCC pelo CPAF-RIO e extensão em Terapia de Aceitação e Compromisso pelo IPq (USP), atende a jovens e adultos em terapia individual, de casal e pré-matrimonial,  em Copacabana. 

Durante a pandemia de coronavírus, todos os atendimentos são online.

Ansiedade – como amar alguém ansioso?

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