As muitas mudanças sociais dos últimos 50 anos tornaram os relacionamentos amorosos muito instáveis. O sociólogo polonês Zygmunt Bauman criou o conceito da liquidez e mais especificamente “amor  líquido ” (na entrevista, aos 4min), que define bem o estado atual das coisas. A revolução digital acelerou  as inovações, e as pessoas ainda estão aprendendo a lidar com o que surge de novidade a cada dia, ainda se adaptando e com muito sofrimento diante das incertezas. As redes sociais, como Facebook e Instagram, e os aplicativos de relacionamentos, como Tinder, trouxeram grande instabilidade aos casais e muitos se veem incapazes de  se protegerem contra a tecnologia (ou contra o que imaginam que possa acontecer) e com enorme dificuldade de construírem vínculos. Sem consciência sobre o que se passa, as pessoas se afastam do que querem mais profundamente: aceitação, acolhimento, pertencimento.

Um relacionamento  minimamente “estável” (na medida em que alguma estabilidade seja possível) demanda  ajustes, concessões e acordos. Autoavaliação, autocrítica e compromisso com os valores (individuais e do casal) fazem a diferença e a psicoterapia pode ajudar a  lidar com os desafios que os relacionamentos amorosos atualmente enfrentam. Mas, apesar de todos os avanços tecnológicos (e científicos, fundamentando o seu valor), o preconceito  contra psicoterapia persiste. Mesmo em grandes centros urbanos, ainda há quem acredite que seja coisa para ‘maluco‘, ‘desajustado‘, ‘gente sem amigo‘ etc. Ou para qualquer outra pessoa, que não ela mesma. Portanto, é muito bom, quando pessoas bem sucedidas vêm a público dizer que, sim, o processo psicoterapêutico ajuda a atravessar fases mais complicadas,  promove o autoconhecimento e também a aceitação das diferenças, melhorando os relacionamentos  de todos os tipos (amorosos, familiares, profissionais)

Psicoterapia não é coisa pra gente doida. É para gente valente, que acredita na sua própria responsabilidade de levar sua vida em frente – apesar das dificuldades que surgem.

Também recentemente a família real britânica tem falado da importância de cuidar da saúde mental – em particular sobre depressão. E se há um certo constrangimento, ainda em relação à psicoterapia individual, talvez seja ainda maior o preconceito contra  terapia de casal. Existem  crenças românticas que dificultam que se considere a terapia um recurso. Uma delas é a de que, “se for amor ‘de verdade‘, tudo se resolverá por conta própria“. Pelos altos índices de separações que acontecem, talvez esteja havendo então pouco ‘amor de verdade’. Ou  divergências sérias entre o que cada  pessoa entende como amor ‘verdadeiro’. De toda forma,  a aversão ao trabalho psicoterapêutico impede que estes conceitos e valores sejam clarificados, ressignificados, acordados. Muitos casais mal se dão conta dos  valores que cada um considera essenciais para um bom relacionamento. É bom lembrar que os valores devem ser discutidos para cada casal. Não existem acordos ‘universais’. Como diz o senso comum, “o combinado não sai caro“.  

Michelle Obama, ex-primeira dama dos Estados Unidos, em uma entrevista  de 8 minutos ao programa Good Morning America sobre sua biografia,  falou da sua experiência com terapia de casal . Eu conheço muitos casais jovens que lutam e pensam de alguma forma, há algo errado com eles Eu quero que eles saibam que Michelle e Barack Obama – que têm um casamento fenomenal e que se amam – nós trabalhamos em nosso casamento e conseguimos ajuda com nosso casamento quando precisamos.” 

http://time.com/f3c9683b-1233-49f9-a01d-4e4f0a38d866

Michelle disse aos casais que mesmo um casamento de décadas, bem sucedido, pode precisar de ajuda, algumas vezes: “Eu conheço muitos casais jovens que lutam e pensam, de alguma forma, que há algo errado com eles”, disse  Michelle Obama. “Eu quero que eles saibam que Michelle e Barack Obama – que têm um casamento fenomenal e que se amam -… nós trabalhamos em nosso casamento e procuramos ajuda com nosso casamento quando precisamos.” Espera-se que depois desta autorrevelação, mais pessoas possam considerar a possibilidade de buscar ajuda. 

Se você está em um relacionamento compromissado, atravessando algum momento difícil, e ainda não procurou ajuda psicoterapêutica, informe-se  sobre como a terapia de casal (ou mesmo a terapia pré-matrimonial) pode ajudar você e seu par. Agende uma consulta, reveja alguns dos conceitos e crenças românticas que, ao contribuírem para o estabelecimento de expectativas inalcançáveis,  geram frustrações e provocam afastamento e desconexão, que é  ameaçador para o sucesso de um relacionamento amoroso. 

Referências

Beck, A. T . Love is never enough. New York: Harper & Row. 1988.

Harris, R.  Act with love: stop struggling, reconcile differences and strenghten your relationship with acceptance and commitment therapy . Oakland: New Harbinger Publications, 2009.

Lev, A., McKay, M.  Acceptance and commitment therapy for couples : a clinician’s guide to using mindfulness, values & schema awareness to rebuild relationships. Oakland: New Harbinger Publications, 2017

McKay, M.  Couple Skills (2nd Ed): making your relationship work. Oakland: New Harbinger Publications, 2006

Walser, R. D; Westrup, D . The mindful couple – how acceptance and mindfulness can lead you to the love you want. Oakland: New Harbinger Publications, 2009.

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Thays Babo é psicóloga e publicitária, Mestre em Psicologia Clínica pela Puc-Rio, com formação em TCC pelo CPAF-RIO e extensão em Terapia de Aceitação e Compromisso pelo IPq (USP). Atende jovens e adultos em terapia individual, de casal e pré-matrimonial,  em Copacabana. 

 

Relacionamento amoroso – se você gosta, é claro que tem de cuidar.
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