Segundo dados de 2021 da Organização Mundial de Saúde (OMS), os transtornos de ansiedade são os mais comuns. Mulheres sofrem mais de ansiedade do que homens.
O Brasil é o país mais ansioso do mundo, ainda segundo a OMS. Um certo grau de ansiedade é normal e até desejável. A ansiedade passa a ser problema quando paralisa ou faz com que a gente evite, constantemente, determinadas situações no dia-a-dia.
Mas existem muitos recursos para aprender a regular a sua ansiedade. É possível através da psicoterapia, aliando ou não a medicação. Outro recurso eficaz é a prática de atividade física, meditação e mudanças no estilo de vida, cuidando bastante do sono.
Ansiedade
Seu objetivo não deveria ser eliminar a ansiedade. É praticamente impossível e nem seria desejável. A ansiedade tem uma função evolutiva: ela surgiu e existe para nos proteger dos riscos da morte, em situações plenamente evitáveis.
É uma estratégia de sobrevivência, surgida há milênios, que nos foi “transmitida”, por nossos antepassados. Somos, pois, descendentes de pessoas ansiosas que sobreviveram. Por se recolherem mais cedo às cavernas, fugindo de predadores, não foram devoradas. Seus genes foram passados e pudemos nascer.
Assim, faz parte da nossa educação, desde crianças, aprender a reconhecer os perigos, nos tornando mais atentos. Hoje, vivendo em grandes centros urbanos, nossa mente às vezes não consegue distinguir quando a ansiedade é ‘necessária’ e ‘útil’ ou quando é totalmente ‘inútil’, só impedindo a vida.
Como a psicoterapia pode ajudar
A psicoterapia pode ajudar você a aprender a regular suas emoções. Você aprende a conviver com a ansiedade, sem entrar em pânico. Como?
Inicialmente, através da psicoeducação, você aprende a distinguir e compreender os estímulos que disparam a ansiedade. Percebe quais são as situações, ambientes ou tipos de pessoas que são gatilho para você se sentir ansiosa(o).
Aprende também que a ansiedade tem um tempo de duração. Assim, consegue suportar um tempinho, sabendo que ela passa. E recebe treinamento para a regulação das emoções.
A ansiedade tem sua utilidade: ela é necessária em situações de risco real ou frente a decisões complexas existenciais.
O problema é quando ela surge em situações simples e banais – como ir a uma festa, quando é a sua vez de apresentar um trabalho de grupo ou frente a qualquer frustração.
Se sua ansiedade limita a sua vida, restringe sua liberdade de ação e de ir e vir, ela pode estar em um nível patológico. É nesta hora que você precisa procurar ajuda psicológica, para lidar com ela.
Você precisa distinguir ansiedade “útil”, que tem uma função, daquela que só traz prejuízos. Sua ansiedade precisa estar em níveis ‘aceitáveis’, que não impeçam você de viver, nem perturbem os seus relacionamentos.
A ansiedade vista nas redes sociais
Nas redes sociais, muitas imagens e textos definem a ansiedade como ‘excesso de preocupação com o futuro‘, causando certa confusão entre ansiedade e expectativa.
A ansiedade está mais para esperar o pior, algo negativo. Os pensamentos são catastróficos, trazem medo. Paralisam e tolhem a iniciativa pessoal. Restringe a vida.
A pessoa ansiosa evita situações para não entrar em contato com os pensamentos e emoções negativas. Faz o que chamamos de esquiva experiencial.
A esquiva experiencial mantém as crenças e, consequentemente, a ansiedade. Se a pessoa conseguir enfrentar a situação ansiogência, poderá desmentir sua crença catastrófica.

Assim, ao fugir das situações em que se pode ter contato com a ansiedade, os temores não são desmentidos. Continuam reais na sua mente.
Pelo contrário, quanto mais se foge da situação, mais se reforça o comportamento de evitação. Se você não tiver uma experiência positiva, seu pensamento segue como realidade. E não é necessariamente verdade.
A ansiedade como padrão da família
Além dos nossos ancestrais, a família próxima, de origem, pode ter transmitido a você a mensagem de que ‘o mundo é perigoso‘. Ou a ideia de que ‘você não pode confiar em ninguém, ninguém é amigo de verdade.’, dentre outros. Cuidadores diretos, como pai, mãe e irmãos mais velhos, são influências importantes e contribuem para a formação de esquemas iniciais desadaptativos.
Claro que você pode ter vivido uma situação pessoal, próxima, que deixou lembranças traumáticas. É um padrão difícil de ser ‘quebrado’. Sua memória relembra você, ensinando a ficar alerta. Mas é sempre importante conseguir distinguir e esta conscientização pode vir pela psicoterapia.
Quem faz parte da geração Millenial tem maior chance de sofrer de ansiedade, segundo estudos mais recentes. Esta geração é muito voltada para o sucesso profissional, para a competitividade. Também se têm apontado que uma educação superprotetora, com mães ou pais “helicóptero”, não permitem que os filhos desenvolvam a resiliência necessária.
Aceitação da própria ansiedade pede autocompaixão
Pessoas ansiosas, ao perceberem que muitas das suas preocupações não se concretizam, ao invés de relaxarem, começam a se julgar. Julgam-se com “defeito”, “fracas”, “covardes”. Sentem vergonha. Alguns dos esquemas disfuncionais, os quais a Terapia do Esquema descreve tão bem, como Defectividadade e Emaranhamento costumam estar presentes.
Muitas tentam, em vão, controlar esta ansiedade pelo pensamento: “não posso sentir ansiedade” ou “não posso ter uma ataque de ansiedade“. Estendem a tentativa de controle às outras pessoas. E mais ansiedade sentem.
É preciso ter autocompaixão e entender que a ansiedade surgiu como tentativa de proteção, de sobrevivência. Mas não necessariamente se submeter à tentativa de controle.
Sintomas físicos costumam surgir, como respiração encurtada, taquicardia, suores e tremores.
Como tratar
A ansiedade faz parte do quadro de vários transtornos como, por exemplo, Síndrome do Pânico, Fobia Específica, Fobia Social, Estresse Pós-Traumático e Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG). Em neurodivergentes também costuma estar presente.
No DSM-V, o capítulo sobre Transtorno de Ansiedade trouxe mudanças nos critérios diagnósticos. O Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), o Transtorno de Estresse Agudo e o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) foram realocados em novos capítulos.
Pesquisas mostram que o tratamento medicamentoso da ansiedade costuma ser mais eficiente quando combinado com a psicoterapia, que atua, muitas vezes, de forma preventiva. Atividades físicas constantes também têm se mostrado importantes no tratamento.
Automedicação é totalmente desaconselhável
Os ansiolíticos são remédios para serem tomados com acompanhamento, preferencialmente por psiquiatra. Benzodiazepínicos (os tarja preta) têm sido largamente usados, indiscriminadamente. São indicados para um tempo muito limitado de uso. Tem vários efeitos colaterais arriscados.
De uma maneira geral, não se deve repetir por tempo prolongado prescrições passadas em um momento de crise. É necessário aprender a lidar com a situação ansiogênica.
Psiquiatras cada vez mais indicam atividades físicas (aeróbicas), mudanças no estilo de vida e também a meditação como aliada no tratamento dos transtornos de ansiedade.
Apenas usar medicação pode, de certa forma, ser considerada uma fuga, se as outras recomendações médicas não forem adotadas.
Abordagens psicoterápicas
Duas linhas de terapia têm conseguido bons resultados, comprovados em pesquisas, no tratamento da ansiedade: a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e a a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT).
Com a TCC, a pessoa ansiosa aprende a reconhecer seus padrões cognitivos e, ao identificar os pensamentos e situações que são “gatilhos”, passa a lidar melhor com eles, podendo ter comportamentos diferentes. Esta abordagem trabalha com a reestruturação cognitiva, entre outros recursos. Há uma técnica específica, para situações de pânico, bastante eficiente, chamada A.C.A.L.M.E.-S.E.
Muito indicada por psiquiatras, pelo grande número de estudos científicos publicados, a TCC tem bons resultados no tratamento da ansiedade e de outros transtornos psíquicos.
A Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), aos poucos, também vem se tornando conhecida,como uma abordagem com eficácia comprovada no tratamento da ansiedade. A abordagem da ansiedade é diferente da TCC: ao invés de fazer a reestruturação cognitiva, trabalha-se a aceitação da ansiedade, sem alimentar o auto julgamento ou tentar “consertar” a mente. Só observando os padrões, sem precisar intervir, a ansiedade pode ser suportada – e com isto, pode diminuir.
Um criadores da ACT, o psicólogo Steven Hayes, tem uma palestra TED. Nela, corajosamente, relata sua própria experiência com uma crise de pânico.
Se você sofre com ansiedade e percebe o quanto ela prejudica seus relacionamentos, sua vida profissional ou acadêmica, procure ajuda especializada, profissional. Faça psicoterapia.
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Thays Babo (CRP 08/48563) – Mestre em Psicologia Clínica pela Puc-Rio, com formação em Terapia Cognitivo Comportamental (TCC) pelo CPAF-RIO e extensão em Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) pelo IPq (USP). Formada em Terapia do Esquema na Wainer Psicologia, em Terapia de Casal nas Abordagens Contextuais (Atitude). Atualmente, faz formação em TSU (Terapia de Sessão Única) e capacitação em atendimento a neurodivergentes.
Atendimento a jovens e adultos em terapia individual, de casal e pré-matrimonial online e presencial em Curitiba.
Coautora de dois livros: Relacionamentos Amorosos na Era Digital e A Escola e as Competências Socioemocionais na Educação.
