O segundo domingo de maio, quando se comemora o dia das Mães, traz o foco para a complicada relação mãe-filhxs. Sendo uma das principais datas do comércio, somos bombardeados com propaganda em todos os meios. Chega a ser injusto, pois as mães merecem todos os dias – um seria pouco.  Quem já perdeu a mãe, por morte ou separação, ou quem tem uma relação complicada com a sua, pode ficar mal neste dia. Assumir que a relação com a mãe não é boa não é o ‘esperado’ socialmente: diz-se que mãe é só amor, abnegada, perfeita e que ama incondicionalmente seu/s filho/a/s. Mas, na vida real, nós, psis, sabemos que não é assim. Se ninguém é perfeito, por que a mãe seria?

Renato Russo, na música Pais e Filhos, canta que é “absurdo” culpar os pais por tudo. O filósofo francês Jean-Paul Sartre dizia que o que é importa é o que fazemos com o que os outros fizeram ou fazem de nós. É nossa responsabilidade. O mesmo se aplica em relação a pai e mãe. Mas, como negar a importância das figuras parentais na formação da personalidade? Impossível.  Assim, a maioria das abordagens psicoterápicas atribui grande importância à participação da mãe na formação de personalidade, por ser, em geral, a primeira cuidadora, de quem a criança mais depende ao nascer. Depois, a criança aprende observando como se comporta, como se comunica; sua visão sobre futuro e de mundo influencia. Estando conscientes disto, pode-se assumir a responsabilidade perante o projeto de vida, dando o sentido próprio, pessoal. Nem sempre é fácil, mas é possível. Focando na figura materna, temos de reconhecer que mesmo filhos e filhas que têm bom relacionamento com sua mãe, vez por outra, alternam  sentimentos ambivalentes. Sentem tanto amor como raiva. Afinal sendo humana tem defeitos e qualidades, que provocam emoções negativas. 

Quem chega para psicoterapia com muita mágoa em relação à mãe precisará entender que não basta a mulher engravidar para que, como em um passe de mágica, todos os seus ‘defeitos’ ou comportamentos ‘disfuncionais’ desapareçam, diminuam ou se modifiquem. Muitas vezes ela também tem seus traumas e uma relação complicada com sua própria mãe. Continua, pois a ser muito do que era antes – ainda que modificada pela experiência da maternidade. Poderá repetir o que aprendeu na relação com sua própria mãe, se esta não foi carinhosa, foi fria, agressiva ou distante, na sua relação com sua criança. Se tiver  ficado consciente e refletido sobre o quanto isto a magoou ao longo da vida, aí sim, escreverá uma história diferente. 

O momento de vida em que a mãe engravidou e o tipo de relação (amorosa? casual) que ocasionou a gestação influenciam também a relação mãe-filhx. Se a gestação não foi desejada, pode ter vivido experiências difíceis. Pode desenvolver uma depressão pós-parto (cercada de acusações e preconceito) e/ou carregar consigo memórias deste período ao longo da vida. A decisão de engravidar às vezes é mais para cumprir a exigência social. E até o controle da natalidade ainda é algo que depende também da decisão o homem. Ainda hoje, é necessária a “autorização” do marido para que a mulher faça laqueadura – você sabia? Enfim, a mulher pode ter feito renúncias ou escolhas que a desagradaram, vindo a cobrar por isto.  Estas são apenas algumas das causas possíveis para a dificuldade da relação entre uma mãe e seu/s filho/s. Mas as causas são inúmeras e, como muito, se diz “cada caso é um caso“.

 

mãe

Assim, obviamente, a mãe muitas vezes faz parte do processo de psicoterapia – se não presencialmente, ao menos como referência. Faz até parte do imaginário coletivo: algumas abordagens popularizaram a ideia de ‘matar a mãe’ – simbolicamente, é claro, como se pode ver no vídeo abaixo 🙂 

Aqui no Brasil, muitas vezes a relação permanece estreita até a vida adulta, por variadas razões, inclusive econômicas.  – que filhos e filhas continuem morando  com a mãe mesmo adultos. Passa a ser problemático quando estão totalmente emaranhados, sem conseguirem tomar decisões por si só e/ou se sentindo culpados quando fazem algo contrário ao que a mãe quer. Há muitos tipos de mãe possível – e a mesma mãe pode ter vários aspectos, aparentemente contraditórios. Podem ser doces em um dia, agressivas no outro. E saber aceitar a humanidade da mãe é importante, também sem romantizar e idealizar tanto  a maternidade. Algumas crenças repetidas exaustivamente geram muito sofrimento em quem acredita nelas – e podem até influenciar na decisão de não ter filhos. Algumas são:

  • Mãe sempre se sacrifica ao máximo;
  • Mãe não deprime;
  • Boa mãe tem de abrir mão de sua vida pessoal, sendo a maternidade mais importante do que ser profissional;
  • Mãe deve gostar mais de criar e educar, e deixar em segundo plano o casamento e sua   vida afetiva-sexual.

Nem todas as mulheres são iguais – e estas ideias podem pesar muito, pois geram expectativas nos filhos e podem trazer muita culpa às que não se enquadram nelas. Alguns conceitos já estão mudando, felizmente. Um conceito fantástico sobre mães foi desenvolvido pelo psicanalista inglês Donald Winnicott: a mãe “suficientemente boa“, que pode ser libertador. 

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Muitas e muitas vezes, na psicoterapia trabalha-se o que se idealiza sobre a mãe. E como ela é ou foi na vida do/a cliente. Os millenials se queixam bastante sobre as expectativas que tanto mãe como pai têm sobre si, atualizaram algumas questões. Mas precisam descobrir os seus próprios  valores.  E questionar como fica a sua responsabilidade na sua vida? 

Se você percebe que sua criação e o relacionamento com sua mãe geraram problemas que atrapalham, ainda hoje, a sua vida, seus relacionamentos – com outras mulheres, com cônjuge, com filhxs ou consigo mesmo/a -, e suas escolhas profissionais ou financeiras, fale sobre isto. Faça as pazes com o que você pensa e sente sobre sua mãe. Investindo em psicoterapia, a qualidade da sua vida, como um todo, pode melhorar – a curto prazo. E permitir que você passe a ter  uma boa relação com ela e também com o dia das Mães. 

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Thays Babo é psicóloga e Mestre em Psicologia Clínica pela PUC-Rio. Com formação em TCC e extensão em ACT, atende no Centro do Rio  a jovens e adultos, em terapia individual ou de casal. 

 

A culpa é sempre da mãe?

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