Disponível na Netflix Brasil, Toc Toc é uma produção espanhola (2017), baseada em uma peça francesa, que aborda o transtorno obsessivo-compulsivo. Já teve algumas montagens teatrais no Brasil. Como filmoterapia, facilita o entendimento sobre o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), de forma leve.
As redes sociais facilitaram o conhecimento sobre alguns transtornos, mas também trouxe informações que não são verdadeiras. Muitas pessoas, que não são especialistas, produzem conteúdo para monetizar. Apesar de a aceitação do problema fazer diferença na vida de quem sofre deste transtorno, banalizar termos psiquiátricos pode atrapalhar.
Não tratado, o TOC pode restringir bastante a vida do indivíduo. É um dos transtornos mais incapacitantes e traz muito sofrimento para a própria pessoa e os que são próximos.
Como Melhor Impossível (As Good as it gets) – filme imperdível que rendeu, em 1998, o Oscar de Melhor Ator a Jack Nicholson e de Melhor Atriz para Helen Hun – Toc Toc ajuda a reconhecer os sintomas do transtorno obsessivo-compulsivo. A partir do grande sucesso do filme americano, o número de diagnósticos aumentou. Ao se reconhecerem em Melvin Udall, personagem de Nicholson, mais pessoas acabaram buscando ajuda psi para minimizarem seu sofrimento psíquico.
Resenha
Em Toc toc, seis pacientes estão à espera de um psiquiatra, que se atrasa ao retornar de uma viagem. Enquanto o esperam, descobrem que, devido a um erro do software de agendamento, recém comprado, todos terão consulta no mesmo horário.
Alguns destes não sabem exatamente que seu problema é transtorno obsessivo-compulsivo. E um deles sofre de Síndrome de Tourette. Todos procuraram ajuda psiquiátrica por perceberem que seus sintomas restringiam e prejudicavam sua vida e seus relacionamentos.
Enquanto esperam o médico, os seis pacientes interagem. Acabam entendendo o sintoma um do outro, assim como aceitando o seu próprio sintoma. E se ajudam! Aquele encontro não planejado se assemelha a uma terapia de grupo. Não dá para falar muito mais para não dar spoiler.
Transtorno Obsessivo-Compulsivo
Toc Toc exemplifica como o transtorno obsessivo-compulsivo pode se manifestar no dia-a-dia e como afetam os relacionamentos. Os tipos que o público leigo facilmente reconhece em Toc Toc são aqueles com compulsões.
- de limpeza
- de verificação
- de ordem, simetria, arranjo e alinhamento
Outras compulsões possíveis são a contagem, repetições ou confirmações. Há também as compulsões mentais (pensamentos que podem envolver violência, sexualidade, coisas nojentas). São os famosos “pensamentos intrusivos”.
No filme, também aparece o transtorno de acumulação (hoarding) – que é guardar coisas inúteis, bem diferentemente do hobby de colecionar). O transtorno de acumulação também ficou conhecido devido a séries nas tvs por assinatura.
https://www.youtube.com/watch?v=xbnSlEW3KgM
Porém, apesar de o tom humorístico ajudar os leigos a identificarem, não traz compreensão e compaixão. Quem sofre de transtorno obsessivo-compulsivo pode ter intenso sofrimento mental. Os pensamentos obsessivos fazem com que crie rituais para que “controlem” os pensamentos e diminua a ansiedade. Não é, verdadeiramente, engraçado.
Ou seja, apesar da “pegada de humor”, na vida real, não tratar o TOC não é uma boa escolha. Restringe a vida, podendo prejudicar seus relacionamentos interpessoais e inclusive profissionalmente.
Na tentativa de reduzir a ansiedade que as obsessões trazem, quem sofre de TOC estabelece rituais – comportamentos (que podem ser apenas mentais) voluntários e repetitivos que aliviam as obsessões. Acreditam que evitará acontecer o que temem. E são repetidos, às vezes exaustivamente, para garantir que não aconteçam. Perde-se muito tempo. Prejudica a qualidade de vida e dos relacionamentos.
Além disto, quem sofre de TOC, muitas vezes impõe estes rituais a quem é próximo. Ao adotarem os rituais, as pessoas próximas infelizmente, reforçam o sintoma. Se apenas rejeitam, geram muita ansiedade.
Tratamento
O transtorno obsessivo-compulsivo é uma doença crônica e é importante ajuda especializada no seu tratamento. Muitos pacientes relutam em buscar ajuda, não falam dos sintomas, por vergonha.
O tratamento do TOC geralmente alia medicação e psicoterapia. Tanto a TCC – terapia cognitivo-comportamental – como as abordagens contextuais podem trazer excelentes melhoras.
Então, se você ou alguém próximo sofre de transtorno obsessivo-compulsivo, procure profissionais da saúde mental. A dupla psiquiatra/psicólogo(a) costuma trazer bons resultados.
Você pode entender melhor o transtorno obsessivo-compulsivo no site da Associação Solidária do Toc e Sindrome de Tourette. voltado não só para os pacientes e profissionais, mas também para familiares e leigos.
Thays Babo é Psicóloga Clínica, Mestre pela Puc-Rio, com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental , Terapia do Esquema e Terapia de Casal nas abordagens contextuais. Também cursou extensão em Terapia de Aceitação e Compromisso pelo IPq (USP). Atualmente faz uma formação em TSU e capacitação em atendimento a pessoas neurodivergentes. Atende a jovens e adultos em terapia individual, de casal e pré-matrimonial online.
