Há alguém que não seja ansioso, hoje em dia? Os dados coletados pela OMS relacionam o Brasil como um dos países  com a população mais ansiosa do mundo – 9,3% da população. Provavelmente, o percentual deve ser maior, pois nem todas as pessoas identificam e buscam ajuda, não sendo portanto computadas nas estatísticas.

Entendendo o que gera ansiedade

A ansiedade tem componentes hereditários e também é aprendida . Ou seja, o estilo familiar influi. Pais e mães ansiosos tendem a criar seus filhos com pensamentos pessimistas, catastróficos, achando que o mundo é ameaçador. Por isto, preste atenção na mensagem que você passa e aprenda a regular suas emoções.

Mas, além do ambiente familiar, o estilo de vida contemporâneo contribui para que a ansiedade atinja níveis intoleráveis. Viver em grandes centros urbanos, por exemplo, certamente, contribui: há violência, insegurança, trânsito pesado, dentre outras questões. E há as exigências sociais, cobrando o sucesso em todas as áreas da vida.

Recentemente, a tecnologia digital ampliou a carga de trabalho, comprometendo o lazer, tão importante para a saúde mental. As corporações exigem que seus “colaboradores” sejam ‘multitarefa‘ (o que já se sabe que não é nada saudável), que todos ‘performem’ bem… Empresas mais antenadas com questões de saúde mental têm investido em programas de saúde mental para sua equipe, incluindo aí o treinamento em práticas de mindfulness, para ajudar a manter o equilíbrio.

Outro fator que tem sido apontado como responsável para o crescimento da ansiedade: redes sociais, como Facebook e Instagram. Seguir ‘celebridades’, ‘personalidades’ e mesmo pessoas amigas, pode gerar insatisfação. Podem parecer estar melhores do que nós, mesmo não estando, e esta comparação pode ser bastante injusta. Surge a insatisfação e pode também gerar uma competição desnecessária.

Os relacionamentos amorosos também têm se mostrado mais instáveis nesta era digital. Há uma vigilância constante sobre o/a parceiro/a, aumentando a ansiedade, principalmente por causa dos aplicativos de relacionamentos, como Tinder e Hppn. Muito recentemente, o Facebook lançou o Dating , com uma estratégia bem agressiva: oferece o recurso mesmo para quem não está à procura. Nos próximos meses isto deve resvalar nas queixas clínicas.

Farmacoterapia – e o que mais?

A indústria farmacêutica tem lucrado bastante com os ansiolíticos e sofre críticas de vários profissionais da saúde mental, como psicólogos, pois recebem clientes que já se autodiagnosticam, definindo-se como portador de transtornos de ansiedade e querendo um remédio para acabar com ela. Mas é importante se conscientizar das situações (às vezes exclusivamente mentais) gatilhos, que disparam a ansiedade. A partir daí, a pessoa ansiosa aprende a regular suas emoções e não ter de recorrer, 100% das vezes, à medicação. Afinal, há um preço que vai além do que se paga na caixa registradora da farmácia: os efeitos colaterais de muitos medicamentos e suas interações com outros remédios (os de uso prolongado, por exemplo).

Psicoterapia e outras mudanças no estilo de vida

Atualmente, psiquiatras já reconhecem a importância da mudança no estilo de vida para manejar a ansiedade. Praticar atividades aeróbicas, meditar, ter um bom sono ajuda bastante. Um dos melhores recursos naturais para combater ou prevenir ataques de pânico são os relaxamentos e técnicas respiratórias, como respiração diafragmática. Já está comprovada a relação entre a ansiedade e alterações na respiração. Tensa, a pessoa respira de forma mais curta, acelerada. Todo cuidado é pouco na hora de diagnosticar e prescrever – atribuições da psiquiatria. Mas a boa prática psiquiátrica não é só a medicação inclui a parceria com a psicologia. A psicoterapia pode ajudar preventivamente. E também no momento de uma crise de ansiedade. Apesar de a pessoa acreditar firmemente que não consegue dar conta sozinha, nem suportar um momento de ansiedade – ela passa. Inicialmente, muitas vezes terá de recorrer a uma droga (psicofármaco, mas, em alguns casos, recorre ao álcool e outras substâncias, o que pode ser um risco a mais e não funcionar).

A psicoterapia ajuda a quebrar o ciclo de pensamentos, ao identificá-los. A pessoa ansiosa pode ter sua vida embotada se só se medicar sem enfrentar a situação a sério, sem tentar entender sua ansiedade (e isto serve para todos os transtornos psíquicos). A autoimagem também fica comprometida. Muitas sentem vergonha e escondem o uso dos psicofármacos, com medo de serem julgadas. A psicoterapia também pode ajudar a desenvolver a autocompaixão e a segurança necessárias para se recusar a atender a todas as expectativas externas.

Foto de Gabriel Matula em Unplash

Vivendo em um mundo ansiogênico, talvez o primeiro passo para lidar bem com a ansiedade seja aceitar que ela não será totalmente “zerada”. A psicoterapia ajuda a aceitar este fato: tem-se ansiedade – mas não se é a ansiedade. A ansiedade pode vir e ir embora. A Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) por exemplo, não se empenha em “combater”a ansiedade – pede apenas que se observe, sem ter de brigar com ela. O que a fez surgir, como se fica quando ela aparece, será que tem de se fazer algo? Outras abordagens clínicas, como a Terapia Cognitivo Comportamental (TCC), usam técnicas para amenizar a ansiedade. Aprende-se a enfrentar situações estressantes que aconteçam fora do setting terapêutico. Com os recursos e técnicas ensinadas, a pessoa pode combater suas crises de ansiedade ou pânico – minimizando, por exemplo, as idas às emergências e, dependendo do caso, aos poucos, diminuindo a medicação – com o devido acompanhamento psiquiátrico.

Se você tem sentido que a sua ansiedade vem aumentando e fugindo ao seu controle, procure ajuda psi. Vamos falar sobre isto.

Thays Babo é Psicóloga Clínica, Mestre pela Puc-Rio, com formação em TCC e extensão em Terapia de Aceitação e Compromisso pelo IPq (USP). Atende a jovens e adultos em terapia individual, de casal e pré-matrimonial,  em Copacabana.

Ansiedade – quando o futuro que imaginamos é o pior possível

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