Um amor inesperado, filme argentino, tem feito sucesso no Brasil. Só por ter  Ricardo Darín no elenco,  já seria bom motivo para sair de casa e ir ao cinema. Mas existem outros, além do ator.

Um amor… é especialmente interessante para quem já criou filhos. O longa, conta a história de um casal cujo único filho vai estudar no exterior. É aí que começam a se questionar e a se darem conta do que havia se tornado o casamento – bastante satisfatório, por sinal. Mas falta paixão – e isto parece se constituir em um problema, numa sociedade que valoriza a paixão acima de tudo em um relacionamento.

Caso você ainda não tenha visto o filme, seria melhor ler a resenha depois de assistir, por causa dos spoilers.

Não precisa ter passado dos 50 para achar excelente o filme. O casamento de Ana (Mercedes Morán) e Marcos (Ricardo Darín) “funcionava” bem. E, de repente, para surpresa de todos, o casal decide se separar, sem nenhuma causa aparente: nenhum dos dois tinha caso amoroso em paralelo. A sexualidade deles ia bem – como fica claro na conversa dela com a amiga – que tinha, por sua vez, queixas sexuais com o próprio marido. Mas, em uma conversa casual, perguntam-se para quê continuar. Qual o significado de continuarem juntos, sem estarem apaixonados?

O questionamento foi provocado por Ana que, como muitas mulheres, têm como principal objetivo para o casamento ter filhos. Quando seu papel tem de mudar, não tendo mais por perto o seu para cuidar, diariamente, começa a se questionar. Não havia mais a paixão inicial e fica a impressão de que Ana sentiu uma certa inveja da mãe, octogenária, que redescobre estas delícia. O filme mostra que talvez sejam mesmo as mulheres as maiores vítimas das crenças que o amor romântico instilou.

Como já comentado no blog, as expectativas que o amor romântico trouxe para o casamento são um tanto quanto perigosas, gerando muita frustração. Tem-se de um lado a supervalorização da excitação, permanente, da paixão. Esta emoção é mesmo viciante; segundo os neurocientistas, funciona como uma droga. E, ao passar, deixa uma privação dos neurotransmissores liberados inicialmente. Nesta fase, muitas pessoas deixam um relacionamento e partem em busca de outro. Mas, tantos anos depois? Sempre causa estranheza nos casais amigos, na família e nos outros meios em que o casal circula.

Talvez os 25 anos que Ana esperou tenham passado desapercebidos para ela, que colocou sua atenção e afeto principalmente na educação do filho (alguma semelhança com mulheres que você conhece não será mera coincidência). Marcos tem uma visão existencialista, via os benefícios da partida do rapaz e parecia entender melhor a fase que tinham pela frente, vendo vantagens. Ana se mostrava intolerante com os comportamentos do companheiro (atraso e preferência por determinados sabores de empanadas), com menos aceitação, repentinamente. Não foram abordadas questões possíveis – como menopausa, por exemplo, que traz importantes mudanças para a mulher

De outro lado, há a necessidade de segurança, pertencimento, acolhimento. Bauman falou deste conflito entre liberdade e segurança, característico do relacionamento amoroso na contemporaneidade. No momento em que decidem a separação, parece que Ana quer a liberdade, acima de tudo. Marcos não demonstra tanta certeza, lamenta, querendo mais a segurança. Parece que seu sofrimento é maior – o que contraria o que muitas mulheres pensam: que “homem nenhum presta“. É hora de rever os conceitos e não generalizar. Ele custa mais tempo a ir em busca de uma nova parceira.

Pode ser excelente filmoterapia, ajudando casais que se encontrem nesta fase, que traz a famosa crise do ninho vazio. Ou para quem acaba de se separar – tanto para poder planejar o que fazer quanto também para analisar e ver se a decisão foi impulsiva ou amadurecida. Não deixa de ser divertidíssimo, para pessoas de todas as idades, as experiências amorosas / sexuais que têm a partir da separação. As críticas também às redes sociais e aplicativos de relacionamento (Tinder e Instagram) também são bem pertinentes; jovens usuários destas redes poderão se reconhecer em algumas situações.

Algumas pessoas se decepcionaram com o título, em português, que no final das contas não surge para nenhum dos dois. Mas o título original é Um amor menos pensado. Fica a dica. Muitas vezes justamente são os nossos pensamentos (crenças e ideais) que trazem sofrimento. E muito do sofrimento é desnecessário, quando há maior clareza das ideias. Tudo ia bem, mas quando ambos começam a pensar – baseados nos padrões e expectativas românticos – começam a se comparar e acreditam que podem ser mais felizes. É verdade que cresceram, com suas experiências e tiveram a incrível sorte de serem suficientemente abertos para reconsiderarem e aceitarem um ao outro com suas respectivas histórias. Muitas pessoas não cogitariam perdoar as aventuras amorosas e sexuais, ainda que no momento de separação tenha sido amistoso e consensual. Haja flexibilidade psicológica e cognitiva – algo que falta para muitos casais.

E você? Assistiu? O que lhe chamou a atenção, o que desagradou? A quantas anda o seu relacionamento e como você pode melhorá-lo? Deixe sua opinião.

Thays Babo é  Mestre em Psicologia Clínica pela Puc-Rio, com formação em terapia cognitivo-comportamental (TCC),  pelo CPAF-RIO e extensão em ACT (Terapia de Aceitação e Compromisso),  pelo IPq (USP). Atende a jovens e adultos em terapia individual, terapia de casal e terapia pré-matrimonial,  em Copacabana

Um amor menos pensado
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