Muita gente adora a época das Festas e se prepara para ela, a partir de outubro. Contudo, ao contrário do que se poderia imaginar, algumas pessoas ficam mal. As que vivem longe de sua família podem sentir o peso da solidão. E as quem não têm bom relacionamento com a sua família de origem podem ficar muito ansiosas.

As festividades podem reavivar lembranças traumáticas. Mas, a enorme pressão social não permite que se fuja muito destes eventos – e, por isto, muita gente torce pela chegada do dia 2 de janeiro.

A importância da família

Na família, em geral, se começam os primeiros aprendizados. Ali se estabelece as primeiras relações, é onde as pessoas são preparadas para irem para o mundo.

Conhecida como ‘célula máter da sociedade‘, a família tem importância inegável no desenvolvimento emocional. A maioria das abordagens de psicoterapia considera esta influência no desenvolvimento da personalidade, ainda que a trabalhem de formas distintas na clínica.

Quando o pai ou mãe faltou, ou ambos, as pessoas que cuidaram da criança, em substituição, é que terão maior impacto na saúde mental. Dado o grande número de transtornos mentais, podemos pressupor que há muito mais desrespeito, maus tratos e abusos do que se esperaria de uma família feliz. Os laços sanguíneos não são, pois, garantia do amor que gostaríamos de ter, incondicional.

Nas tradições religiosas, nas artes e na propaganda, o que se vê são famílias felizes e cooperadoras (na mídia,em especial nesta época de se dar e receber presente, as famílias representadas são sempre harmoniosas). No entanto, mesmo nas Escrituras religiosas estes ideais não são sempre atendidos. Há brigas entre irmãos, traições e disputas de poder. Como em muitas famílias em todo o mundo, ainda hoje. Por isto, para quem vem de uma família tóxica, este período gera grande ansiedade. A família representada nas artes é bem diferente da família real.

Relações familiares abusivas.

Muitos problemas psicológicos se originam das experiências iniciais, com a família. (Re)encontrar pessoas que já foram – ou ainda são – agressoras não é, pois, confortável. Gera ansiedade e mal estar às ‘vítimas’, que  se sentem na obrigação (muitas vezes religiosa) de perdoar.

Segredos de família, mentiras e traições geram desconforto e podem vir à tona nestes encontros.

Na terapia, testemunha-se o sofrimento da pessoa que não consegue se desemaranhar e manter distância da família, para sua própria sobrevivência ou saúde emocional.

Quem tem uma família de origem tóxica nutre sentimentos ambivalentes quando tenta se afastar – em geral, culpa. As Festas acabam sendo um grande teste: tais encontros podem ser situações aversivas das quais muitas vezes não se pode esquivar. Apesar do apelo cristão para perdoar, nem sempre é fácil – ou possível.

Foto de Mourad Saadi em Unsplash

Comparação e a sensação de fracasso

Outro aspecto que pode ser incômodo é (re)encontrar parentes bem sucedidos, quando se atravessa uma fase difícil financeira ou profissionalmente. Afinal, é uma tendência do ser humano se comparar às pessoas – o que traz muito sofrimento mental.

Muitas vezes a comparação (ou competição) surge estimulada pelo próprio pai ou mãe, que põem pressão ao comparar irmãos – ou primos -, sem consciência do quanto a situação é desagradável.

Quem está mal financeiramente, por exemplo – pode se sentir “perdendo”, como se estivesse numa competição. A impossibilidade de dar presentes (ou presentes que gostaria de dar) pode causar constrangimento – e algumas pessoas fogem até do tradicional “amigo oculto” – ou secreto.

Foto de @freestocks.org em Unsplash

Quem tem esquema mental de fracasso, vergonha ou defectividade se sente em desvantagem – por não ter conquistas materiais, que simbolizam ‘sucesso’ ou prestígio, ou  por não estar em um relacionamento. As festas podem ser então situações aversivas, às quais se comparece em sofrimento. Muitas vezes a saída escolhida é abusar do álcool ou da comida.

Um erro cognitivo comum de pessoas com os esquemas citados é desqualificar as próprias conquistas. Ao mesmo tempo, tendem a supervalorizar  as derrotas – ou as vitórias dos outros (minimização do positivo e maximização do positivo, segundo a Terapia Cognitivo Comportamental).  

Faltar às confraternizações não é, em geral, uma opção: a ausência pode trazer consequências no convívio familiar no resto do ano, causando justo o que não se quer : expor-se mais às críticas.  

Vamos falar sobre isto

Muitos profissionais da área de saúde mental saem de férias nesta época, mas, se você está em um momento difícil, e em psicoterapia, deve solicitar um telefone de algum outro, de confiança, para uma emergência. Há também a alternativa do CVV, caso opte em ficar em casa mas sinta realmente o risco de ficar só.

Se não está ainda em um processo psicoterápico, considere seriamente a possibilidade de começar. É importante descobrir o que incomoda. É possível, aprender a lidar com as suas dificuldades e transformar a sua vida na direção do que você quer, para uma vida mais valiosa.

Thays Babo é Psicóloga Clínica e atende a jovens e adultos em terapia individual, em Copacabana ou online, ou em terapia de casal e pré-matrimonial, 

Mestre pela Puc-Rio, tem formação em TCC, extensão em Terapia de Aceitação e Compromisso pelo IPq (USP), e é associada à ACBS (Association for Contextual Behavioral Science).

Festas: reencontrando a família

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.