Muita gente adora a época das Festas e se prepara para ela, a partir de outubro. Mas também não são poucas as pessoas que não gostam tanto assim deste período.

São basicamente dois grandes grupos:

  • pessoas que vivem longe de sua família – estas ficam melancólicas, sentem o peso da solidão;
  • pessoas que não têm bom relacionamento com a sua família de origem – ficam muito ansiosas, diante da possibilidade de encontrá-la reunida.

A enorme pressão social não permite que se fuja muito destes eventos – e, por isto, muita gente torce pela chegada do dia 2 de janeiro.

A importância da família

Na família, em geral, começam os primeiros aprendizados sobre a vida, sobre o mundo. Ali se estabelecem as primeiras relações.

Conhecida como ‘célula máter da sociedade‘, sua importância é inegável no desenvolvimento da personalidade, para basicamente todas as abordagens de psicoterapia. Porém, cada uma desenvolve a sua teoria e trabalha de forma distinta na clínica.

Nas tradições religiosas, nas artes e na propaganda, o que se vê são famílias felizes e cooperadoras. A mídia, em especial nesta época de se dar e receber presente, foca bastante nesta representação de família harmoniosa.

No entanto, mesmo nas Escrituras religiosas, estes ideais não são sempre atendidos. Há brigas entre irmãos, traições e disputas de poder. Como em muitas famílias em todo o mundo, ainda hoje.

Necessidades emocionais

Quando o pai e/ou mãe faltou, as pessoas que cuidaram da criança, em substituição, é que terão maior impacto na saúde mental.

Desrespeito, maus tratos e abusos deixam marcas emocionais que são carregadas para sempre. Definitivamente, laços sanguíneos não são, pois, garantia do amor que gostaríamos de ter, incondicional. Apesar de todos nós nascermos com necessidades emocionais básicas, nem todo cuidador consegue supri-la.

Assim podem surgir os esquemas, propostos na Terapia do Esquema, criada por Jeffrey Young.

Reencontrando pessoas abusivas

(Re)encontrar pessoas que já foram – ou ainda são – agressoras nas festas de família não é, pois, confortável. Gera ansiedade e mal estar às ‘vítimas’, que  se sentem na obrigação (muitas vezes religiosa) de perdoar.

Segredos de família, mentiras e traições geram desconforto e podem vir à tona nestes encontros.

Quem tem uma família de origem tóxica nutre sentimentos ambivalentes. E quando tenta se afastar, muitas vezes sente culpa. E desiste.

As Festas acabam sendo um grande teste. Porém, tais encontros podem ser aversivos e impossíveis de se esquivar. Há um apelo religioso, cristão, para perdoar. Em terapia, ouvimos relatos de sofrimento de quem não consegue se desemaranhar e manter distância da família, para sua própria sobrevivência ou saúde emocional.

Porém, nem sempre é fácil – ou possível. Ou mesmo desejável – dependendo da situação, o abuso pode se repetir.

Foto de Mourad Saadi em Unsplash

Comparação e a sensação de fracasso

Outro aspecto que pode ser incômodo nestes eventos é (re)encontrar parentes bem sucedidos, quando se atravessa uma fase difícil financeira ou profissionalmente. Afinal, é uma tendência do ser humano se comparar às pessoas – o que traz muito sofrimento mental.

Muitas vezes a comparação (ou competição) surge estimulada pelo próprio pai e/ou mãe, que põem pressão ao comparar irmãos – ou primos -, sem consciência do quanto a situação é desagradável.

Quem está mal financeiramente, por exemplo – pode se sentir “perdendo”, inferior, como se estivesse numa competição. A impossibilidade de dar presentes (ou presentes que gostaria de dar) pode causar constrangimento .

Foto de @freestocks.org em Unsplash

Quem tem esquema mental de fracasso, vergonha ou defectividade, se sente em desvantagem – por não ter conquistas materiais, que simbolizam ‘sucesso’ ou prestígio. O estado civil também pode ser cobrado pelos parentes.

Assim, as festas podem ser situações aversivas, às quais se comparece em sofrimento. Muitas vezes a saída escolhida é abusar do álcool ou da comida.

Faltar às confraternizações não é, em geral, uma opção. A ausência pode trazer consequências no convívio familiar no resto do ano, causando justo o que não se quer : expor-se mais às críticas.  

Vamos falar sobre isto

Muitos profissionais da área de saúde mental saem de férias nesta época. Se você está em um momento difícil, e em psicoterapia, deve solicitar um telefone de algum outro, de confiança, para uma emergência.

Sempre é bom lembrar do CVV, Centro de Valorização da Vida. O atendimento do CVV funciona 24h por dia, todos os dias e feriados. E, caso opte em ficar em casa, mas sinta risco em ficar só entre em contato pelo número 188.

Se não está ainda em um processo psicoterápico, considere seriamente a possibilidade de começar. É importante descobrir o que incomoda.

É possível aprender a lidar com as suas dificuldades e transformar a sua vida na direção do que você quer, para uma vida mais valiosa. E é possível aprender a dar limites e dizer sim – ou não – às Festas, de acordo com a sua vontade.

Thays Babo é Psicóloga e Mestre em Psicologia Clínica, pela Puc-Rio. Atende a jovens e adultos em terapia individual, em Copacabana ou online, ou em terapia de casal e pré-matrimonial.  Tem formação em TCC, extensão em Terapia de Aceitação e Compromisso pelo IPq (USP), e é associada à ACBS (Association for Contextual Behavioral Science). Concluiu a formação em Terapia do Esquema pela Wainer Psicologia.

Festas: reencontrando a família

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