Talvez você tenha começado a ler este texto, por curiosidade, imaginando que haja realmente uma psicoterapia ótima, que dê conta de todas as queixas. Uma abordagem que sirva para todas as pessoas.

Não, não há. Mas, então, como escolher um/a psicólogo/a?

Primeiro de tudo, você precisa perder o medo de iniciar o processo.  Por trás do medo da psicoterapia, está o medo da mudança, que impede muitas pessoas de até fazer o primeiro contato.

Apesar de já estar em sofrimento, talvez você tema sofrer ainda mais, ao revisitar fatos tristes ou traumáticos. 

Como diz Michal J. Formica, a terapia “é   um lugar onde aprendemos a nos sentir desconfortáveis conosco, para que possamos nos sentir mais confortáveis com quem somos e com nosso lugar no mundo.” 

Medos de começar

À ideia do desconforto emocional  soma-se o temor de ter de se transformar (e a fantasia de desestruturar toda a vida).  Sofre-se pelo que se pensa sobre a psicoterapia.

E muito do que se pensa não é verdade.

As  representações estereotipadas sobre psicoterapia em  filmes e novelas contribuem para estas fantasias.  Você não precisa falar da sua mãe, por exemplo, se não quiser… 

Como encontrar a pessoa certa para atender você

Ter uma indicação ou encaminhamento pode dar mais confiança para dar o passo inicial.  Mas não garante nada. Um/a psi com ótimas referências (pessoais, midiáticas ou acadêmicas) pode não ser indicado/a pra você.

Precisa haver empatia. Você tem de gostar dele/dela. E perceber que houve reciprocidade. Você precisa se sentir à vontade, acolhido(a), não julgado(a).

Caso você não sinta isto, você deve marcar mais entrevistas. Ou buscar outro(a) profissional.

Não aceite que digam a você que isto é  “resistência”. Confie na sua percepção. Marque com outra pessoa, caso não tenha se sentido bem com a primeira, mas a informe também que não irá continuar. 

Empatia – por que é tão fundamental?

A empatia cliente-psi é fundamental e você deve respeitar a sua sensação na entrevista inicial, antes de se comprometer com o tratamento. Sem ela,  o  vínculo de confiança  não se  estabelece e o processo não começa, de verdade. 

O processo psicoterápico não costuma ser  fácil, pois toca pontos sensíveis da sua história pessoal – tanto ao investigar o passado quanto ao levantar expectativas, projetos e possibilidades.  Por isto, é importante se sentir à vontade para se expor e falar de si.

Mas, certamente, o tempo contribui para, ao longo do processo,  ficar-se mais à vontade para abordar questões mais dolorosas.

O que você pensa sobre fazer psicoterapia?

Incrivelmente, ainda há quem sinta vergonha de compartilhar que faz terapia. O estigma e medo de ser considerado “louco(a)” ou “desequilibrado(a)” faz com que muitas pessoas nem contem para as pessoas amigas,  familiares ou mesmo para o par amoroso que estão fazendo psicoterapia.

Mitos acerca da psicoterapia afastam quem poderia (e deveria fazer).  Por isto, é ótimo quando as pessoas bem sucedidas – como atletas, artistas e até membros da realeza – vêm a público contar da sua experiência pessoal com a terapia.  Elas servem de estímulo para outras, anônimas, que se sentem menos mal com suas queixas. 

A representação da terapia nas artes provavelmente contribui para isto. A terapia  aparece em contextos cômicos, o que não facilita a superação do preconceito.

Terapia não é confortável

A psicoterapia é o lugar de se revelar e se autodescobrir. Também é onde se percebe  que a responsabilidade  sobre o seu sofrimento muitas vezes não pode ser transferida a outra pessoa. Isto pode doer.

É o chamado para assumir a responsabilidade pela sua vida, a ter compromisso com os valores pessoais e parar de se justificar no que as outras pessoas fizeram. É quando a lamentação chega ao fim. (Obviamente há em que a pessoa foi ou é totalmente vítima. O/a psi ajuda a superar, a tornar resiliente e a saber usar sua  liberdade para se afastar da situação. E, dependendo do caso, intervém de forma diferenciada – podendo até solicitar ajuda da família ou da justiça).

Começando a psicoterapia

Ao marcar a primeira consulta, dá-se início ao processo de entrevistas, que varia de  psicoterapeuta para psicoterapeuta.

Na entrevista inicial, são levantados  dados importantes, fazendo uma anamnese, procurando  entender o que causou a procura pela terapia.

O/a psi deve explicar sua forma de trabalho, a abordagem e estabelecer o contrato terapêutico (em geral, verbal): são combinados o horário, como repor faltas, forma de pagamento, dentre outros assuntos. Assim, o/a cliente tem uma ideia de como será o processo terapêutico, entende o compromisso e como se engajar no processo.  

Segundo vários psis, o sucesso da psicoterapia não depende  da abordagem.  Irvin Yalom, por exemplo, psiquiatra e psicoterapeuta existencialista,  defende a ideia de que o  que “cura” na psicoterapia, mais do que a abordagem teórica, é a relação.

Assim, apesar da qualificação do/a profissional,  tempo de treinamento e da experiência clínica, bem como o embasamento teórico serem muito importantes são as  características pessoais e a empatia entre cliente e terapeuta que  fazem a diferença.

Vai muito além do manejo das técnicas e o domínio da teoria.

Para Yalom,  “cura” é o processo de mudança e transformação e ele não hesita em fazer autorrevelações, tornando-se mais próximo, se achar que contribui para o processo psicoterápico.

Recentemente, Jeff Young, criador da Terapia do Esquema, em um Simpósio, falou basicamente o mesmo: estar disponível para o/a cliente, mostrar suas emoções, pode ajudar muito no processo.

Desta forma, cada vez mais profissionais, das mais diversas abordagens, concordam que  a qualidade de relação terapeuta-cliente é o que faz a diferença. 

Vencendo as barreiras iniciais

Começar a fazer psicoterapia ainda é um ato de coragem, cercado de preconceito – muitas vezes de quem procura, que adia até atingir um extremo sofrimento mental. 

Honorários

Muitas pessoas consideram que psicoterapia é algo caríssimo, que só pessoas ricas podem fazer. Mas há várias alternativas: nas faculdades com o curso de Psicologia existe o Serviço de Psicologia Aplicada. E cursos de pós também costumam oferecer horários para terapia. Estas opções têm custo mais reduzido, sendo conhecidas como  “clínica social”, com valores mais flexíveis, dependendo da renda.

A maioria dos planos de saúde credencia profissionais de psicologia mas,  devido à grande demanda de pessoas que (acham que) não podem pagar,  não costumam ter muitos horários disponíveis ou fazem sessões muito curtas. 

Reembolso

Alguns planos de saúde ou empresas dão a opção de reembolso. Em geral,  o(a) cliente terá de pedir um  encaminhamento a um/a médico/a, em geral psiquiatra, que emitirá um  laudo.

Os termos do laudo podem assustar. Ao recebê-lo, converse com quem o emitiu, esclareça seu significado, ao invés de  buscar no Google. Os planos costumam limitar o número de sessões, de acordo com o laudo. 

E como avaliar se a psicoterapia está sendo bem conduzida? A revista americana  Psychology Today listou 10 características que todas as boas terapias devem ter, independente da abordagem teórica. São elas:

  1. Não ser uma boa “amizade” – o vínculo psicoterapeuta-cliente não pode ser igual ao que se tem com amigos; 
  2. Ser baseada em evidências;
  3.  Afirmar a dignidade e o valor humano básico do/a cliente.
  4. Encorajar e modelar o feedback e a comunicação precisos, honestos e oportunos;
  5. Estabelecer boa aliança entre terapeuta e cliente;
  6. Estimular a independência e a competência do/a cliente;
  7. Considerar a história e a biografia do/a cliente;
  8. Levar em consideração a experiência subjetiva do/a cliente e seu mundo interior;
  9. Trabalhar de forma que o/a cliente se engaje e faça sua parte no processo;
  10. A boa terapia deve oferecer apoio, requer aprendizado e facilita a ação.
Tipos de terapia 

Além das várias abordagens psicológicas (terapia cognitivo-comportamental, terapia de aceitação e compromisso, terapia fenomenológico-existencial, psicodrama, gestalt, dentre outras), a psicoterapia pode ser individual ou em grupo.

Também pode ser voltada para o relacionamento amoroso ou familiar: terapia de família ou de casal –  e também pré-matrimonial.

Sucesso do processo

Em todas as modalidades , a empatia e o vínculo são  fatores decisivos para o engajamento e sucesso do processo psicoterápico.  Por isto, dê-se ao direito de fazer uma ou mais entrevista antes de realmente assumir um compromisso.

Importante frisar que a psicoterapia precisa de constância e frequência para dar bom resultado. Além disto, precisa de um  tempo – que pode ser mais ou menos rápido, de acordo com o compromisso do/a cliente. 

Nas abordagens cognitivas, após um tempo, as consultas vão se espaçando, pois o/a profissional qualificado/a possibilita o desenvolvimento da independência e a assunção da responsabilidade do/a cliente, que começa a fazer suas escolhas mais alinhadas com seus valores pessoais.  

Terapia online

Em março de 2020, a pandemia de coronavírus fez com que profissionais da saúde mental tivessem de adotar o teleatendimento. Nâo é o melhor dos mundos – em geral a terapia online era adotada para quem morava longe do consultório do(a) psi, ou porque tinha uma agenda muito imprevisível, ou por alguma incapacitação.

Mas, faz parte: aprendemos a ser flexíveis e a nos adaptarmos às condições. Elas são temporárias, passageiras, mas ainda sem um prazo previsto. 

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Thays Babo é psicóloga, Mestre em Psicologia Clínica pela Puc-Rio, com formação em Terapia Cognitivo Comportamental (TCC) pelo CPAF-RIO e extensão em Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) pelo IPq (USP). Atende a jovens e adultos em terapia individual, de casal e pré-matrimonial,  em Copacabana.

Durante a pandemia de coronavírus, os atendimentos são exclusivamente online.

Como escolher a melhor psicoterapia?

2 ideias sobre “Como escolher a melhor psicoterapia?

  • 19/06/2019 em 16:24
    Permalink

    O texto está muito bom. É esclarecedor, equilibrado, sensato e com muita informação útil para quem pretende iniciar uma terapia psicológica.
    Ajuda muito a desmistificar a terapia, jogando uma luz sobre como funciona o processo. Quem precisa não deve se deixar intimidar pelo patrulhamento emocional feito pelos que não têm coragem de fazer a terapia.

  • 19/06/2019 em 16:24
    Permalink

    Obrigada pelo feedback, Eduardo. Agradeço se compartilhar! 😉

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